Enquanto as
atenções se concentram no vai-não-vai do julgamento do mensalão e nas
crescentes evidências de que o escândalo contra o PT vem sendo tratado com
dureza incomum pela mídia nacional, pela Procuradoria Geral da República e pelo
Supremo Tribunal Federal, outro escândalo, de dimensões bilionárias e repleto
de evidências contra políticos, vai passando batido.
Chegam a
bilhões de reais as somas envolvidas em um esquema de corrupção que tornou o
transporte público metroviário em São Paulo uma tortura diária para milhões de
paulistanos que penam diariamente nos vagões do pior sistema de metrô do mundo
em termos de superlotação.
Para que se
tenha uma ideia, a pequena rede metroviária paulistana (74,2 km2) transporta
até 11 passageiros por metro quadro enquanto a recomendação internacional é de
que não passem de 6. Por conta disso, segundo o jornal Folha
de São Paulo o metrô paulistano é o mais superlotado do mundo.
Em agosto, a
revista IstoÉ denunciou que o escândalo de superfaturamento nas obras do metrô
e na aquisição de trens se arrasta desde o governo Mario Covas, passando pelos
governos José Serra e Geraldo Alckmin. Porém, as denúncias surgiram em 2008 e,
desde então, o governo paulista, responsável pelo setor, não apenas não apurou
nada como impediu investigações.
A oposição
ao governo Alckmin já pediu cinco CPIs e todas foram barradas por ordem
expressa dele.
O escândalo
dos trens paulistas envolve empresas como a francesa Alstom e a alemã Siemens,
entre outras. Um dos casos mais impressionantes vem de 2009, um ano após as
primeiras denúncias do caso Alstom, o que revela a certeza de impunidade dos
governos do PSDB paulista.
Trecho de
matéria recente da jornalista Conceição
Lemes, que vem fazendo um trabalho investigativo sobre esse escândalo de enorme
importância, mostra bem a dimensão da roubalheira:
“(…) Em
2009, no governo Serra, o Metrô abriu concorrência para reformar 96 trens das
linhas 1 ( Azul) e 3 (Vermelha) em um valor total de R$ 1,75 bilhão. Segundo
contratos oficiais, um trem novo custava R$ 23 milhões e o reformado saía por
R$ 17 milhões. Ou seja, os trens reformados teriam um custo final de 86% de um
trem novo (…)”
Nesse tempo
todo, a “rigorosa” imprensa brasileira jamais deu nome aos bois de forma
adequadamente clara, como faz quando o escândalo envolve o PT – com exceção da
revista IstoÉ e de sites e blogs na internet.
Contudo, em
agosto deste ano, na falta de investigação oficial, a empresa Siemens tomou
iniciativa de ir ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) denunciar
que seus controles internos detectaram que alguns de seus altos funcionários
haviam corrompido o governo paulista.
O mais
escandaloso em todo esse caso é que foi preciso que o corruptor se
autodenunciasse em troca de um acordo de delação premiada, no qual a Siemens
seria poupada de sanções por ter ido ao Cade revelar as transações obscuras em
que se envolveu com as gestões do PSDB paulista.
Depois da
porta arrombada, em agosto, após a denúncia da Siemens e das matérias na
revista IstoÉ, o governo Alckmin, enquanto orientava sua bancada na Assembleia
Legislativa a barrar os pedidos da oposição de Comissões Parlamentares de
Inquérito, instalou uma “investigação” no âmbito da Corregedoria Geral de São
Paulo, que controla.
A
Corregedoria do governo Alckmin, porém, vem fazendo um jogo de cena, com a
cumplicidade da grande imprensa. Nesse aspecto, o Jornal Nacional, da Rede
Globo, apresentou matéria, na última terça-feira, que induz a crer que o
próprio governo de São Paulo vem se investigando ao lado da Polícia Federal e
do Ministério Público.
Na matéria,
o corregedor-geral paulista, Gustavo Úngaro, subordinado ao governo Alckmin,
tenta iludir o público afirmando que, “De todas as empresas suspeitas, a única
que não está colaborando é a Siemens”, e que “recomendou ao Metrô e à CPTM que
iniciassem, imediatamente, processos administrativos contra a empresa para que
ela seja proibida de participar de licitações”.
Todavia, a
“investigação” que o governo paulista alardeia e que a mídia trata como se
fosse séria, não passa de jogo de cena. Equivale a apresentar o governo Lula
como o investigador do escândalo do mensalão.
A Siemens,
porém, reagiu com dureza à encenação do governo Alckmin. Em nota, explica que
não prestou depoimentos à corregedoria tucana porque existe uma obrigação legal
de sigilo em seu “acordo de leniência” com o Cade, e que está respeitando
determinação que é, também, da Polícia Federal e do Ministério Público.
A nota da
Siemens é demolidora. Explica que foi ela mesma que denunciou o caso e que a
conduta da corregedoria do governo Alckmin – ou seja, do próprio governador –
cria “Um ambiente contrário à transparência e ao diálogo e acaba premiando os
que decidem acobertar as más práticas”.
Tanto a
Globo como o resto da grande imprensa – sobretudo da imprensa paulista – sabem
muito bem que a Siemens não pode dar ao governo tucano as informações que ele
quer porque seu acordo com o Cade a obriga a manter tais informações fora do
alcance justamente do governo que está sendo investigado, mas que, com uma desfaçatez
revoltante, tenta posar de “investigador”.
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