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quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

As agências de risco, por Delfim Netto

Do Valor Econômico
Por Antonio Delfim Netto
A reação do grande ex-presidente da França Valéry Giscard D'Estaing à decisão da agência calculadora de risco Standard & Poor's (S&P) de rebaixar a nota da França de AAA para AA+ foi certeira: "Do ponto de vista financeiro, ela é absurda. Sempre pagamos as nossas dívidas. Depois da Segunda Guerra, eu mesmo fui aos Estados Unidos levar o nosso cheque de pagamento da dívida".
Afinal qual é a delas (S&P, Moody's e Fitch)? Estarão, como alguns desinformados acreditam, a serviço da volatilidade tão prazerosa dos especuladores financeiros de Wall Street? Terão por acaso melhorado tecnicamente? Há menos de três anos, classificavam como AAA estranhos "pacotes" que seus clientes vendiam a incautos e honestos investidores.
É provável que haja algum efeito dessa decisão que já não estivesse incorporado pelos mercados. Podemos ter alguma volatilidade no curto prazo, mas pequenos efeitos no longo. Uma interpretação benigna é que a S&P estaria tentando acelerar a solução do problema europeu.
Exibicionismo destrutivo da S&P merece uma nota D
No seu comunicado, ela afirma que "as iniciativas tomadas pelos líderes europeus nas últimas semanas podem ser insuficientes para atacar completamente problemas sistêmicos da zona do euro". Puro palavrório. Principalmente quando levamos em conta quando manifesta sua preocupação "com o fraco crescimento", sem esclarecer qual a mágica que poderia melhorá-lo.
Não parece que problemas "sistêmicos" da Eurolândia possam ser melhor solucionados com o rebaixamento da nota da França. Junto com a Alemanha, é fiadora do European Financial Stabilization Facility (EFSF), que toma recursos no mercado a taxas mais baixas para repassá-los aos países que têm dificuldades de colocar os seus papéis. Nesta semana vamos saber qual o efeito da medida sobre a taxa de juros da dívida francesa (que pagava, antes da ação da S&P, 3,08% ao ano para títulos de dez anos).
O comportamento da S&P apoia-se em fato discutível: a solução deveria ser muito mais rápida. Trata-se do típico sinal da arrogância do sistema financeiro. O que fazer com as leis dos países e suas democracias?
A decisão foi extemporânea, principalmente depois da mudança da política do Banco Central Europeu. Este passou a emprestar aos bancos e se esforça para reduzir a possibilidade de uma queda do crédito dentro dos países, o que reduziria ainda mais o crescimento econômico tão desejado (corretamente) pela S&P.
A ação do BCE está ampliando a liquidez e tendendo a desvalorizar o euro. Este fechou em 13 de janeiro, a US$ 1,267, a menor cotação em um ano e meio, o que deve ajudar a ampliar as exportações dos países para fora da Eurolândia.
Isso acrescentará um pouco mais de energia externa ao seu crescimento econômico em 2012, hoje estimado em - 0,7% (Alemanha, 03,%; França, -0,6% e Itália, -1,7%).
A medida foi também extemporânea, porque prejudica a própria "solução" desejada (pelo menos vocalmente) pela S&P. Do ponto de vista lógico, seria difícil à S&P manter a nota AAA para os papéis da EFSF, que ela acabou de rebaixar para AA+. Se o mercado a levar a sério (é o que resta saber), aumentará os custos de sua captação e, logo, os custos dos países que recebem os seus recursos, dificultando a solução e acrescentando mais problemas aos "sistêmicos" referidos por ela.
A dúvida sobre sua credibilidade é perfeitamente razoável diante dos efeitos nos papéis do Tesouro Americano depois do seu rebaixamento de AAA para AA+. Os juros dos papéis de um mês caíram de 0,015% no 3º trimestre de 2011, para 0,010% no dia 12 deste mês; e os de dez anos, de 2,8%, em 2011, para 1,9%.
Entre 10 e 12 de janeiro, o Tesouro Americano colocou nada menos do que US$ 120 bilhões a taxas de juros decrescentes e com demanda/oferta superiores a 4,5 (até 6 meses) e de 3,3 (10 e 30 anos). E o Bundesbank, operador do Tesouro alemão, colocou, em 9 de janeiro, € 3,9 bilhões com papéis de seis meses a uma taxa de juro nominal negativa de 0,0122%, contra uma positiva de 0,0005% em 5 de dezembro de 2011.
A decisão da S&P foi ainda infeliz, porque, em 11 de janeiro, a Itália e a Espanha colocaram € 22 bilhões a custos menores do que anteriormente. Um sinal que os mercados estão acreditando nos novos governos de Mario Monti e Mariano Rajoy.
No caso italiano, colocou-se € 8,5 bilhões em papéis de 360 dias à taxa de 2,735% ao ano, contra 5,95% pagos em meados de dezembro de 2010 para os mesmos papéis. Apenas para dar outro sinal, os papéis do Tesouro espanhol, de três anos, foram vendidos à taxa de 3,384% ao ano, contra papéis de mesma maturidade, que pagaram 5,187% em meados de dezembro de 2011.
Há, portanto, indícios claros de avanço na Eurolândia, com exceção do caso grego, onde as discussões foram suspensas para "novas reflexões entre os credores e o governo", para estimar o "haircut" que deve ser estabelecido...
Que nota uma agência de risco daria ao exibicionismo destrutivo e deselegante da S&P? Um D, naturalmente, pela inadimplência no seu papel na procura de solução dos problemas sistêmicos da Eurolândia!
Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento. Escreve às terças-feiras
COMENTÁRIOS:
Alexandre Werner - "Há menos de três anos, classificavam como AAA estranhos "pacotes" que seus clientes vendiam a incautos e honestos investidores."Sobre esse ponto, tenho um livro de Nouriel Roubini muito esclarecedor. É impossível ler sem concluir que essas agências de classificação de risco participaram de uma fraude milionária.Era impossível tais papéis terem classificação AAA. Essas agências cometeram um grave crime contra o sistema financeiro. Por que não foram punidas? Provavelmente pq conseguiram disfarçar bem sua trambicagem e porque a regulação sobre elas é falha. 
Joaquim Aragão - Realmente, está na hora de classificar essas agências, levando em consideração seu passado de classificação,  sua capacidade de previsão, a qualidade das classificações, etc. Vamos ver quem pisou mais na bola!
Paulo Villas - Sem querer rotular, mas já rotulando e esculachando. Aqui temos o PIG , partido da imprensa golpista que age através de um bloco de revistas semanais , jornais e tvs e visam o poder nacional. Na economia destaca-se o PEG, partido da economia global , um conjunto que engloba agências de riscos, bancos, o meio acadêmico, o PIG,  governos fracos e corruptos e visam tomar o mundo. Em comum  a inspiração para as chamadas "teorias conspiratórias". 
Cesar Toledo - o que é engraçado é que quando as agencias rebaixavam e colocavam países como o nosso na chinela das letras repetidas como xxx ou WWW, sei lá, elas estavam certas matematicamente, agora quando a velha Europa recebe nota baixa pelo seu fiasco se discute todo o sistema,  a França , a Alemanha, estão erradas.  Velha lógica dos países centrais não acostumados a serem contestados: pimenta nos olhos dos outros é refresco.
Durvalino – agências de risco são entidades ratificadoras do que o dono quer que seja feito.  É um novo meio de marketing a serviço dos vendedores de títulos. 
Jorge Bastos - Usando uma frase do filme "Wall Street: O dinheiro nunca dorme": "A definição de loucura é fazer sempre a mesma coisa e esperar um resultado diferente". Pensando nisso, vemos que todo o sistema financeiro mundial (e o americano em particular) está louco desde as raízes. Mas ninguém parece se importar muito com isso. O sistema vem sofrendo quebras cada vez mais freqüentes e nada se faz para mudar.

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