Estadão, 12 de janeiro de 2012.
O desempenho da economia brasileira em 2011 foi modesto: o PIB cresceu menos de 3%, a segunda pior performance desde 2004. O freio da economia foi a indústria de transformação, que permaneceu estagnada.
A produção de bens de consumo durável declinou quase 2%. Pior foi o caso dos não duráveis: no ramo têxtil, a produção caiu 15%; em calçados e artigos de couro, menos 10%; no vestuário, -3,3%. De fato, o setor industrial anda de lado, ou, dependendo de onde, para trás. Até hoje não retomou o nível de produção anterior à crise de 2008-2009.
O leitor pode perguntar-se: como é possível isso se o consumo nos últimos anos aumentou tão rápidamente? Desde 2007 as vendas a varejo cresceram perto de 40% reais; em 2011, 5%
A resposta é simples: crescem vertiginosamente as importações de produtos manufaturados. O déficit da balança comercial da indústria de transformação em 2011 (janeiro /novembro) cresceu 37% em relação a 2010, chegando a 44 bilhões de dólares! Em 2006, a balança era superavitária em 30 bilhões. Assim, boa parte dos empregos gerados pela febre de consumo dos últimos anos foi para o exterior.
Há uma desindustrialização em marcha no Brasil. Além do encolhimento do setor em relação ao PIB (faz mais de uma década), há uma desintegração crescente de cadeias produtivas, tornando algumas atividades industriais parecidas às “maquiadoras” mexicanas.
Mas atenção! Os produtos manufaturados que importamos não são mais baratos, e os que exportamos mais caros, porque a indústria brasileira seja mais ineficiente do que a chinesa ou coreana, embora, pouco a pouco, num círculo vicioso, isso possa acontecer. A explicação principal é o elevado custo sistêmico da economia brasileira.
Primeiro, a carga elevada e distorcida de impostos sobre a indústria. Um exemplo simples: de cada R$1 do custo do kw de energia elétrica, R$ 0,52 vão para tributos e encargos setoriais!
Segundo, a péssima infraestrutura. O governo federal destina pouco para investir e investe pouco daquilo que destina, em razão de falta de planejamento, prioridades e capacidade executiva. O país realiza um dos menores investimentos públicos do mundo como fração do PIB. Mais ainda, devido a esses fatores, acrescidos de populismo e preconceitos, os governos do PT não conseguiram fazer parcerias amplas com o setor privado na infraestrutura.
Há uma terceira condição decisiva para a desindustrialização: a persistente sobrevalorização da moeda brasileira diante das moedas estrangeiras: cerca de 70% desde 2002, segundo estimativa de Armando Castelar. Isso aumenta fortemente os custos brasileiros de produção em dólares: dos salários à energia elétrica.
Isoladamente, a sobrevalorização é o fator mais importante que barateia nossas importações e encarece as exportações de manufaturados. Levá-la em conta ajuda a compreender por que temos o Big Mac mais caro do mundo e os nossos turistas em Nova York, embora em menor número do que os alemães e os ingleses , gastam mais do que os dois somados.
Economistas e jornalistas de fora do governo falam contra a idéia de existir uma política específica para a indústria. Opõem-se à teoria e à prática de uma política industrial, que, segundo eles, geraria distorções e injustiças. Já o pessoal do governo e seus economistas falam enfaticamente a favor da necessidade e da prática de política industrial. Nessa discussão, gastam-se papel, tempo de TV a cabo e horas de palestras.
É uma polêmica interessante, mas surrealista, pois não existe de fato uma política econômica abrangente e coerente, de médio e longo prazos, que enfrente as causas da perda de competitividade da indústria. O programa Brasil Maior? Faltam envergadura e capacidade de implantação, sobram distorções. E a anarquia da política de compras de máquinas e equipamentos para a área do petróleo ou a confusão dos critérios de crédito subsidiado do BNDES? Têm alguma racionalidade em termos uma política industrial? Nenhuma!
Alguém poderia indagar: “E daí? Qual é o problema de o Brasil se desindustrializar? Temos agricultura pujante, comércio próspero e outros serviços se expandindo. Tudo isso gera emprego e renda. Devemos seguir comprando mais e mais produtos industriais lá fora, pois dispomos dos dólares para tanto: vendemos minérios e alimentos e recebemos muitos investimentos externos”.
Desde logo, nada contra sermos grandes exportadores de produtos agrominerais. Os Estados Unidos fizeram isso nos século 19 e boa parte do século 20 e ainda viraram a maior potência industrial do planeta, expandindo ao máximo a exportação de manufaturas. A riqueza em commodities não é a causa necessária de retrocesso industrial. Pode, sim, ser fator de avanço. O retrocesso só está existindo porque os frutos dessa riqueza não estão sendo utilizados com sensatez e descortino.
Ao se desindustrializar, o país está perdendo a sua maior conquista econômica do século 20. Estamos a regredir bravamente à economia primário-exportadora do século 19; a médio e longo prazos, esse modelo é vulnerável no seu dinamismo, por ser muito dependente do centro (hoje asiático) da economia mundial. Os países com desenvolvimento brilhante têm sido puxados pela indústria, setor que é o lugar geométrico do progresso tecnológico e da geração dos melhores empregos em relação à média da economia.
O Brasil tem 190 milhões de habitantes, a 77ª renda per capita e o 84º IDH do mundo. É preciso ter claro: sua economia continental não proporcionará a renda e os milhões de empregos de qualidade que o progresso social requer tendo como eixo dinâmico o consumo das receitas de exportação de commodities.
A indagação retórica que fiz acima envolve um conceito que tornaria o futuro da economia brasileira vítima de um presente de leniência e indecisão. Conceito que pauta, de fato, o lulopetismo. É que um marketing competente consegue dar uma roupagem moderna a essa nova vanguarda do atraso.
http://www.joseserra.com.br/archives/artigo/a-nova-vanguarda-do-atraso
Marcello Firenze - Vamos por parte (se é que é possível)
A DESINDUSTRIALIZAÇÃO que ocorre é MUNDIAL! A competição e a ganância do empresariado ocidental é que instrumentalizaram os países asiáticos. Está-se a experimentar do próprio veneno.
O senhor diz que há um custo elevado e sistêmico na economia nacional. Como é sistêmico, DEDUZ-SE tratar-se de problema antigo e persistente. Recordo-lhe que, a partir do início do governo de FHC os impostos foram sendo elevados em cerca de 1% aa, até atingir os 34/36% anuais.
O 5º parágrafo é inteligível.
Infraestrutura: não adianta reclamar da falta de investimentos. No Brasil, aprendi na ESG, tudo é prioritário e urgente. Como o Brasil poupa muito pouco, entre outros fatores, não há recursos para atender às várias demandas de um país que é um continente!
Sobrevalorização do Real: deve-se à adoção do câmbio flutuante. Não agimos como faz a China que atrelou a sua moeda ao dólar. Isso por si só explica a valorização do sanduíche do McDonald's e porque brasileiro gasta bastante no exterior.
A política industrial atual é forjada entre os diversos setores econômicos. O governo é um dos partícipes. O BNDES, outrora, foi utilizado como instrumento de desnacionalização do parque industrial brasileiro. Ou não o foi? A continuar aquela antiga política, teríamos como força motora apenas indústrias estrangeiras entre nós! É bom, é ruim? Estamos passando por uma fase em que o câmbio não favorece, mas como tudo muda, já já estaremos navegando em novos mares.
(continuação)
O senhor bem sabe que essa política alarmista que o país está se desindustrializando é falaciosa mesmo porque jamais fomos um país fortemente industrializado. Até a pouco, nem multinacionais tínhamos! Sempre fomos um país exportador de matérias primas.
Falar em indústria é um tanto defasado em termos de futuro. O conhecimento, o domínio de novas tecnologias é o caminho que devemos perseguir. Nisso estamos muito atrasados. A “indústria” de Marcas & Patentes é algo a ser incentivado. O atual governo sabe bem disso tanto que está ou irá propiciar que nacionais passem a estudar nas boas escolas do conhecimento espalhadas pelo mundo.
Quanto ao seu último parágrafo não comentarei porque cada um pensa e escreve o que quer.
Só considero que – o crescimento de 3% do PIB – no ano recém-findo não é algo a se menosprezar diante das imensas dificuldades que países do primeiro mundo, industrializados até a medula, estão a passar!
http://www.ofilhodoprofeta.blogpot.com/
Marcelo Openheimer 12/01/2012 - Parabéns pelo texto, a imagem do Brasil como sexta economia do mundo é apenas uma ilusão para o cidadão comum.
Pois como Sr. mesmo escreve...O Brasil tem 190 milhões de habitantes, a 77ª renda per capita e o 84º IDH do mundo...Ai fica a pergunta, temos riqueza e muito dinheiro de imposto e da carga tributaria, mas e a qualidade de vida?
Aline Passos 12/01/2012 - "É que um marketing competente consegue dar uma roupagem moderna a essa nova vanguarda do atraso." Não poderia terminar em melhores palavras.
Aparecida 12/01/2012 - Boa tarde José Serra. Gostei de ler o texto.
Uma pergunta: Os Estados Unidos também não sofreram um processo de desindustrialização?
Floriano Pesaro 12/01/2012 - Além da sobrevalorização de nossa moeda, ainda temos juros acachapantes que apesar de diminuir lentamente, impedem a modernização de nosso parque industrial e inibem investimentos no setor. Também, nosso custo Brasil onera nossa produção e ainda aceitamos placidamente a importação de produtos manufaturados que usam até mão de obra infantil. Falta de visão global, ausência de planejamento de médio e longo prazo. Lamentável.
jose Irineu Ferreira 12/01/2012 - Não adianta o Brasil ter, a confiabilidade da sexta economia do Mundo , se pagamos o maior imposto do mundo ,so falta taxar os nossos fios de cabelo brancos, para ser a primeira economia do mundo ,isto de a china não abocanhar os nossos parques industrial em todos os setores , não , temos ,Saúde, Educação, imfraestruturas, moradias, cultura esta lacrado no Brasil, transportes,de ferrovias e nem transportes aquaviarios ,para baratiar no lugar dos metrôs e onibos flutuantes. etc. aguardamos a decisão entre o Jose Serra , e Aécio Neves para, decidir a plataforma de governo ,e que ja deveria ja esta bem explicito aos seus eleitorados , abraço ferreirajif@ig.com.br
Carlos D´Ávila 12/01/2012 - Aguém aí falou da desindustrialização americana. O Obama já percebeu a burrice que fizeram em buscarem a riqueza explorando salários medíocres da Ásia e está pedindo para as empresas voltarem. No que está certíssimo.
JOAO TADEU PESSIM DE SOUZA 12/01/2012 - O SR. SEMPRE FOI MASSACRADO DENTRO DO SEU PRÓPRIO PARTIDO, NAO ESTÁ NO MOMENTO DO SR. VIR A MIDIA FALADA E TELEVISADA, E XPLICAR NUMA LINGUAGEM DE ARROZ COM FEIJÃO PARA UMA SOCIEDADE QUE É A MAIORIA QUE LENDO SEU TEXTO NAO VAI ENTENDER NADA,E QUE VOTOU NUM PARTIDO QUE DÃO ESMOLA, O QUE EU CHAMO
José Benedito 12/01/2012 - Prezado José Serra: lembro-me de que na campanha, em 2010, você já falava na desindustrialização e nada foi feito, para se corrigir o desmonte da indústria nacional, até agora. O processo continua e se agrava. A inflação está de volta. Ainda é possível se reverter o processo ou todo esforço feito no Governo Itamar e FHC foi jogado no ralo? Estamos como pano na boca de vaca?
Roberto 12/01/2012 - Tocou no problema certo, mas ainda faltou citar a falta de profissionalização no serviço público. Temos aproximadamente 2.500 engenheiros (e arq. e agrôn.) em atividades no Governo Federal. Ora temos no PAC mais de 500 bilhões em investimentos, no PAC 2 temos 1,5 trilhões de reais e no PPA 5,4 trilhões de reais - quase todos os valores aplicados em obras. Em 2010, o Brasil por meio do Governo Federal, tinha aprox. 1.200 obras de infraestrutura em andamento, com valor acima de um milhão de reais, cada. Só me ocorre pensar que há um pacto secreto entre políticos e as elites da construção civil e da industrial para que tais recursos não tenham controle: nas políticas públicas, nem nas contratações e também não tenham controle na fiscalização. Ficaria apenas a CGU (controlada com mão-de-ferro pelo Executivo) e o TCU (a mercê do controle do Legislativo e sempre temendo perda de seus poucos poderes). É o Estado brasileiro que promove a orientação da economia do país, o desenvolvimento da sociedade e indica o caminho do destino da nação. Cadê o staff técnico, a inteligência de estado (com Engenheiros,Arquitetos e Agrônomos, que permita auxiliar na tomada de decisão? Em vez de círculo virtuoso (tão propício de se estabelecer), há um círculo vicioso - faltam técnicos, há menos projetos, há menos qualidade, haverá menos "fazer" da iniciativa privada, mas não vai faltar corrupção. A vida sem equilíbrio e sem a busca permanente da justiça e da verdade vira uma guerra de insensatos.
Luiz Carlos Tanaka 12/01/2012 - Absolutamente corretas as observações do Prof. Serra. As nações que se permitem ao luxo da desindustrialização estão fatalmente condenadas a se tornarem uma Argentina, ou, no limite, a mergulharem na tragédia atualmente vivida pela decadente economia norte-americana. Aos interessados, recomenda-se a leitura das obras de EAMONN FINGLETON (ex-editor do FINANCIAL TIMES, FORTES, EUROMONEY, e OP-ED do The New York Times, The Washington Post e Harvard Business Review), em especial "UNSUSTAINABLE" e "IN PRAISE OF HARD INDUSTRIES" (e-books disponíveis no site da Amazon) e site em nome do referido autor na internet.
glauco 12/01/2012 - Acho que a desindustrialização é praticamente mundial em função de um governo autoritário da china que tem o menor custo de mão de obra e consegue produzir dezenas de vezes mais que uma industria do ocidente. A "equação matemática" pra resolver o problema é bastante complexa na minha opinião.
Patrick 12/01/2012 - Muito bom artigo, porém a minha indagação fica clara. Qual foi o motivo do senhor José Serra não falar essas e mais na hora dos debates? A Dilma, por mais fraca que fosse com relação a oratória, conseguiu anular todas as frases que o querido José Serra tentou incutir. Está faltando uma oposição ao status quo. Não vejo nenhuma. Infelizmente.
romeu.temporal 12/01/2012 - Temos que reconhecer que o país construiu sólidos fundamentos econômicos: crescimento de forma sustentável, com investimentos em infra-estrutura e com a inclusão de contingentes populacionais marginalizados na pobreza absoluta.
A corrente de comércio com os países centrais, e particularmente os vínculos financeiros que sustentam este comércio, estão ameaçados pela retração do crédito provocada pelo colapso da confiança que abala o sistema financeiro internacional.
Delcio 12/01/2012 - É provável que tenha ocorrido uma diminuição da demanda pelas exportações de produtos manufaturados destinadas à Europa. A maior volatilidade dos mercados de commodities também enseja riscos de rupturas para as empresas locais.
Face a estas ameaças, precisamos conter gastos no curto-prazo e preservar espaço fiscal para financiar os projetos de infra-estrutura que promovem o crescimento do emprego.
Quais são as medidas que podem nos proteger dos riscos que ameaçam a sustentabilidade do crescimento com inclusão social?
Os mecanismos de transmissão da crise sobre nossa economia são basicamente três:
1. Retração do crédito para financiar a produção e para financiar o comércio externo.
2. Redução dos preços das mercadorias que o estado exporta.
3. Diminuição da demanda dos compradores das nossas exportações.
Face um choque externo desta amplitude, o governo armou sua defesa da seguinte forma:
1. Medidas para normalizar o crédito garantindo o financiamento do setor exportador, e, no âmbito interno, garantir financiamento para sustentar o nível de atividade na construção civil e na pesada.
2. Medidas de estímulo às atividades voltadas para o mercado doméstico.
3. Fomentar os investimentos na infra-estrutura que sustenta o crescimento.
Preventivamente, o Governo do Estado já analisa os riscos fiscais da crise no orçamento de para 2012, identificando os possíveis cortes sobre gastos de custeio, e preservando os projetos do das áreas prioritárias da educação, saúde e segurança.
Manteremos a carteira dos projetos estruturantes que prever a construção do novo sistema de mobilidade urbana, do sistema viário Oeste, ampliação dos Portos e das ferrovias.
José Arruda 12/01/2012 - A bem da verdade, o PT do Lula, empregou e continua dando emprego como nunca se viu neste país... aos chineses! Nossa esperança está no PSDB. Façam alguma coisa. Não aguentamos mais! É muita ruindade e patifaria o que estamos vivenciando.
JOSÉ SIDNEI GONÇALVES 12/01/2012 - Artigo magnífico. No mesmo nível e consistente com quem escreveu um clássico dos anos 1970, “para mais além da estagnação” em parceria com a mestra Maria da Conceição Tavares. No artigo você fala que ”há uma desindustrialização em marcha no Brasil”. Dias atrás escrevi minha reflexão sobre o tema no artigo “ reprimarização ou Desindustrialização da Economia Brasileira: uma leitura a partir das exportações para o período 1997-2010”que está disponível em http://www.iea.sp.gov.br/out/LerTexto.php?codTexto=12256.
Ainda que tenhamos perspectivas distintas na leitura do processo suas colocações sobre as perspectivas de impactos devastadores na construção do futuro para o Brasil são simplesmente magníficas. Apenas quem interpreta e entende o Brasil poderia ter feito tal análise. O problema é que a vanguarda do atraso sequer tem consciência da condição de atraso em que se encontram (SIC). Vamos em frente. Na luta.
paulo lavieri 12/01/2012 - Meu Presidente
Continuo não confiando em urnas eletrônicas, principalmente por não permitir recontagem, mesmo que por amostra.
Pelo amor de Deus, seja nosso Prefeito, depois Presidente, são 02 anos de continuo progresso para São Paulo e outros mais para o país...... Ótimo 2012
Sergio 12/01/2012 - O senhor é uma das vozes mais lúcidas desse triste Brasil, e só não é presidente pela deslealdade e desonestidade ocorridas nas últimas eleições.
Só não enxerga quem é desinformado, ignorante ou se beneficia desse sistema corrupto que aí está. Nunca desista, todos nós precisamos do senhor.
Nenhum comentário:
Postar um comentário