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sábado, 7 de janeiro de 2012

O publicitário meteu os pés pelas mãos, na cozinha

DESCULPE-ME, SENHOR PUBLICITÁRIO NIZAN GUANAES, MAS SEU ARTIGO NA FOLHA É UM JABÁ PRECONCEITUOSO E POLITICAMENTE INCORRETO. PERIGOSO A SI MESMO, UM ERRO FATAL
25 de Novembro de 2011
Serve o presente para atender ao pedido e matar a fome de um publicitário. Não sei se vai ser possível, pois o seu ego, a ganância, a gula, são maiores que seu fino faro ou o insosso PF - prato feito - que foi expelido na mídia, passando pelo intestino delgado. Bem, foi dito alhures que o dinheiro vem sempre com uma face suja de sangue ou de mierda.
Sou assinante da Folha de São Paulo e vi a retranca do artigo no anúncio e não perdi tempo. É preciso responder à altura. Nada pessoal e serve a todos os vendedores de ilusão. Mas há tempo chama-me a atenção: como é possível, aliás, caso contrário, é perfeitamente possível, alguém que não tem mérito de grande publicitário, tipo aquele que vende gelo no polo e cobertor no deserto, ganhar tanta grana e contas de empresas para vender sonho. O criador que tem o vício das contas de bebida e de banco. Então, não dá remorso ajudar a enganar o cliente de banco ao anunciar vantagem por pagar para guardar o dinheiro que é usado para ser emprestado a juros extorsivos? Vender telefones caros e mudos! Será que no íntimo, um publicitário não se sente culpado a cada vez que um “bebum” cai na rua ou bate o carro, mata pessoas ou destroi seu lar? Vai que não é pelo motivo de o produto ser necessidade de dependente, mas porque se seguem apenas as "loiras gostosas", como se em vez de bebê-la, se fossem sólidas, comê-las-ia, as próprias. Caso o homem do marketing fosse uma mulher, não imagino como iria se sentir em ver o cara da lata lhe vendo e amassando a lata. Gritando: “não, na boca não!” Que tal a publicidade do bebedor que leva a garrafa ao concerto e ela gelada estoura com o agudo da soprano, jogando os cacos de vidro, sem conserto, molhando de outro suor o público? Diferente daquela “gostosa” que é quebrada na mesa e o tarado vai lambendo gota a gota perdida até chegar à mulher ao lado toda molhada. A publicidade de bebida, igual à de cigarro, precisa ser abolida. Mas o mercado pode sofrer queda e o PIB cair.
A bebida é necessária! Por isso um texto hilário de Karl Marx faz interessante relação direta sobre como os bandidos, as tragédias, as doenças, o fumo e as bebidas ajudam o capitalismo. Sem ladrão não há necessidade de cofre, bancos, portas de segurança, casamatas, sistema de monitoramento de imagens, alarmes, travas, blindagem de carros, tantos policiais e vigilantes. Há dois milhões de vigilantes no Brasil, 700 mil regulares. Sem pragas, epidemias e álcool, diminuir-se-ão a indústria de remédios, corpo de bombeiro e tantos nosocômios e manicômios. Acabou a peste suína ou a vaca louca? O que mata mais no momento? A carne de porco, de frango ou de vaca? O colesterol ruim vem do ovo, do leite, da gordura da picanha ou da massa? Cuidado com a verdadeira massa! O Vegetal é a nossa vocação! Que nada, a carne é forte e a proteína, com o cozido, ajudaram a fazer a cabeça do ser humano.
Pela mídia soube das suas andanças de empresa a empresa e das brigas de galo. De quando em quando, surge notícia do bon vivant, até da luta com a balança e os balanços. Nunca apertei sua mão, mas falo como se fosse um irmão mais velho. De uma coisa tenha certeza: fosse eu, hoje, contratante de publicidade, não contrataria a África até pelo nome. Falo com o conhecimento da causa, pois há vinte anos cuidei de uma empresa que tinha uma conta de publicidade de U$10 milhões ao ano. Achava um absurdo a publicidade gastar com um público de mercado cativo. Mudei as campanhas para educativas e de economia de energia. Ganhei o prêmio PROCEL de economia de energia. Mas onde já se viu usar a imagem de um Continente (dos diamantes de sangue) que é o berço da humanidade de origem negra. Mas a África tem parte branca, em vez de clarear confunde a mensagem. Qual é a relação do nome de fantasia com o Continente? A verdade é que os publicitários tratam os consumidores como imbecis, pior que estes mostram que o são, na medida em que tomam a cerveja anunciada e compram produtos de marcas ruins.
Quanto a sua cozinheira anunciada, de cama e comida, o autor é seu conterrâneo, mas o livro é outro (Gabriela Cravo e Canela, não a Dona Flor e Seus Dois Maridos de Jorge Amado), dizer que ela faz lembrar-nos dos anúncios antigos... Ora cozinheira é coisa aperfeiçoada no capitalismo. No passado, eram anunciados os escravos fugidos e as mucamas e negras de leite é que serviam os senhores, que tinham um pé na cozinha. Em cada família havia as mulheres de profissão doméstica ou do lar, em alguns lares havia também as de rua, o patrão, que supria a casa e a prole a qual cedo pegava no batente. Hoje, os tempos mudaram, os direitos do casal são quase iguais, e não deve mesmo mais ser possível achar empregada doméstica para limpar merda de filho dos outros e as latrinas do patrão. Na cozinha há, sim, possibilidade de cozinheiras, de especialistas na arte de preparar um bom prato com qualidade e quantidade para que a gente possa aprender a comer como um gourmet, não como um glutão.
O homem é aquilo que come e o que come revela o homem (segundo, Ludwig Feuerbach, 1804-1872), não ao quilo, alimento real, nem espiritual ou físico. Aforismo que vale igualmente à mulher e ao famélico. O ex-gordo fez um caldo magro, o ensaio do jabá salgado, seu marketing mal temperado!
Um publicitário, diferente do mascate ou do Nassif do botequim, deveria ter vergonha e, “brega”, ficar com insônia de vender o seu peixe e comprar uma cozinheira de “prenda de Natal”. Tenho conhecidos que fizeram curso de gastronomia que poderiam atender as exigências de um gourmet. Mas possuem curriculum, dispensa de referência, não o que foi pedido, pois parece ser a ficha policial. E, não sou de frequentar terreiro, mas não me consta que neles além dos pais de santos e o espírito volátil dos deuses, a cachaça e a comida sejam de primeira. Pode rodar a baiana. A Bahia não se resume ao acarajé e carnaval, pois tem minérios, petroquímica, algodão, soja, frutas e muito mais, que só um baiano falso não vê.
A escravidão já deveria ter terminado e cada qual ser responsável pela sua sujeira e sua própria comida em casa. Na rua, cada um pode comer o que, onde e como quer. Aos pobres já existem os restaurantes de um real.
Desculpe-me, senhor publicitário Nizan Guanaes, mas seu artigo na Folha é um jabá preconceituoso e politicamente incorreto. Perigoso a si mesmo, um erro fatal. O rei do marketing esqueceu a regra número um de qualquer ditador do mercado. Jamais aceitar indicação de quem faz a sua conta ou comida. Quanto mais simples o pitéu, o risco é menor. É necessário trazer o cozinheiro à mesa, olho no olho, nunca comer na frente dele e às vezes trocar de prato. Pode ser um infiltrado e no lugar do dendê usar boa dose de veneno.
Vai vender? Possivelmente, pois foi feito para seus iguais. Diga o salário que você vai pagar à cozinheira, pois, como se sabe, o ser humano se fez e se faz no trabalho, com a voz que tanto comunica como canta. Veja como é possível plantar, colher, até matar a galinha e tirar o sangue para uma cabidela, cortar os pedaços, colocar o sal, os temperos, mexer, picar a couve, bater o angu e comer, sem ter o dedão virado de lado. Isso é o ser humano, um bípede apenado! De certos bípedes dá pena.
Não sabe o preço da sua mercadoria? É fácil, nada mais do que o valor do trabalho incorporado nela e seu apêndice. O valor de troca é o custo do trabalho acrescido do custo do capital e da mais-valia, a diferença do trabalho não pago. Ocorre que o trabalho se corporifica na mercadoria, com iguarias que parecem vivas, chamando-nos para degustá-las, mas aliena até mesmo uma boa cozinheira. Pois ela faz a comida do patrão, sem ter garantida a de casa. Resolva a questão desta sua criação. Mas caso diga que a cozinheira de forno e fogão é igual a um artesão, com tesão pelo trabalho, nesse caso, não se pode ter seu preço calculado. Na situação de a empregada precisar dormir no serviço, por favor, não se esqueça de reservar uma suíte de mesmo padrão do patrão e da cozinheira e, também, de assinar a carteira pela pessoa jurídica, pois empregado doméstico não goza de todos os direitos trabalhistas, como fundo de garantia, horas extras, adicional noturno, plano de saúde e vale refeição.
Afinal, o executivo deseja o quê? Quituteira é uma coisa e cozinheira é outra coisa. E também pegou mal descartar a possibilidade de contratar um mestre-cuca, uma vez que na arte da gastronomia os homens são os campeões. A mulher divide as tarefas do lar com o marido e diz o ditado que o pega pela boca. Mas cuidado ao vender seu peixe, pois ele também se pega e morre pela boca. Os chefs de cozinha de gente de sua estirpe, com o seu cabedal e padrão, são de salário elevado, para não salgar o doce patrão a procura de quem lhe sacie o ego e a fome! Boa digestão, mas cautela com os acepipes.
Everaldo Gonçalves é geólogo, ex-professor da USP e da UFMG; foi presidente da CPFL – Companhia Paulista de Força e Luz

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