Este é um web-site pessoal, sem fins lucrativos ou patrocinadores e não está vinculado a quaisquer instituições públicas ou privadas. As informações, artigos, textos, imagens clipart´s, fotografias e logos são de propriedade dos seus respectivos titulares, expostos com finalidade de ilustração. Se alguma pessoa se sentir prejudicada, por favor, entre em contato para as devidas correções de imediato, se necessárias.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Por Que É Bom Para O Mundo Que Sarkozy Perca


written by Paulo Nogueira
De Paris
“Ele prometeu muita coisa, mas não fez nada”, diz o motorista de táxi parisiense com quem converso sobre as eleições presidenciais francesas.
Ele é Sarkozy.
É um taxista anormalmente simpático para os padrões parisienses. Uma vez, um motorista jogou para trás uma moeda que tentei dar de gorjeta: eu pegara por engano uma de pouco valor. É comum, em Paris, táxis disponíveis passarem por você e simplesmente ignorarem seu aceno.
O taxista parisiense é essencialmente, bem, ele é um parisiense: arrogante, antipático  e bem pouco disposto a dar duro. (A preguiça adquirida e cultivada admiro, desde que não me afete, como acontece quando preciso de um táxi ou peço alguma coisa na recepção do hotel.) E também monoglota. É como se o francês fosse, como na era medieval, a linguagem culta e universal.
Mas aquele taxista, em particular, era diferente. Falava inglês e era conversador. Foi só ao acertar a conta que notei o preço da simpatia: no taxímetro estava o dobro do que eu tinha pagado pelo mesmo trajeto em outras ocasiões.
Paguei com raiva, e imediatamente me vieram à cabeça os gladiadores que achacam sorridentemente os turistas no Coliseu de Roma. Prefiro ser ludibriado por gente que não sorria, como os abomináveis ciganos búlgaros que comandam os táxis de Praga. Eles rosnam quando você diz ‘bom dia’ e depois giram pela pequena Praga como se estivessem em Shangai.
Mas de novo. O simpático taxista parisiense desonesto refletiu, em seu comentário, o sentimento médio dos franceses em relação ao governo de Nicolas Sarkozy – que aparentemente vai chegando ao final, sem segundo mandato.
Sarkozy acabou em segundo no primeiro turno das eleições. E as pesquisas dão uma vantagem quase intransponível para o candidato socialista François Holland no segundo e definitivo turno.
Sarkozy foi eleito há quatro anos com uma plataforma que rapidamente mostraria ser desastrosa. Ele iria como que americanizar a França. Dar a ela o elemento vital do capitalismo anglo-saxão pós Reagan e Thatcher  – uma receita que, em meados dos anos 2 000, parecia infalível: um mercado tão livre no qual regulamentação era pecado.
Em 2008, veio a crise financeira mundial, provocada basicamente pela ganância desumana de banqueiros que se aproveitaram da desregulamentação para acumular bônus multimilionários com estratégias de curtíssimo prazo que se mostrariam mortais. E então se viu que a fórmula de Reagan e Thatcher podia ser, simplesmente, um horror.
Sarkozy ficou no meio do caminho. Ele se elegeu para fazer reformas que a crise mostrou ser o caminho do abismo. Sua presidência acabou aí. Desde então, Sarkozy colocou foco não na economia que ele prometera reformar – mas em gestos demagógicos como proibir a burca para as muçulmanas.
É bom para a França que Sarkozy se vá. Para o mundo, aliás. Será o primeiro grande sinal de que a Era do 1% — governos dos ricos, pelos ricos e para os ricos – está chegando ao fim.
Desde Reagan e Thatcher, governos conservadores no mundo desenvolvido prometeram pujança econômica em que alternativas como o modelo chinês eram tratadas como piadas. Mas o que eles entregaram, na verdade, foi uma acintosa concentração de renda, legalizada por sistemas tributários francamente favoráveis aos superiores – e, se não bastasse isso, economias em ruínas. O interesse público foi substituído, sob a bandeira da modernidade, pelo interesse de poucos, bem poucos, o já célebre 1%.
A provável derrota de Sarkozy, no segundo turno, vai ser uma vitória menos de Holland, especificamente, e mais dos 99% que, a começar pelo movimento Ocupe Wall Street, gritaram enfim: agora chega.

Nenhum comentário:

Postar um comentário