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domingo, 14 de agosto de 2011
Quebra-quebra na Inglaterra
Os distúrbios de rua que sacudiram Londres e outras cidades inglesas nos últimos dias representam mais um capítulo da jornada de protestos que vem atingindo diversos desde o final de 2010. Dos protestos no Egito aos saques em Londres, há um percurso que, se por um lado apresenta diferenças e características próprias a cada país, por outro, trazem um elemento comum: a crise econômica e financeira internacional iniciada em 2008 está cobrando seu preço. O fracasso retumbante do modelo neoliberal de desregulamentação e enfraquecimento do Estado aparece nas ruas hoje como falta de emprego, moradia, vida digna e perspectiva de futuro. Não é irrelevante o fato de que esse modelo que agora sangra nas ruas nasceu em larga medida da Inglaterra de Margaret Thatcher.
Conforme mostra matéria do correspondente da Carta Maior em Londres, Marcelo Justo, os protestos dos últimos dias não começaram em Tottenham por acaso:
Tottenham é a zona com o maior nível de desemprego de Londres e uma das dez mais pobres do Reino Unido. Com 75% de cortes no orçamento do bairro, desapareceram os clubes juvenis, essenciais durante o verão e as férias escolares. Com tanto tempo livre nas mãos, com uma desigualdade onde as receitas dos mais ricos cresceram 273 vezes mais que as dos mais pobres, em uma sociedade na qual o dinheiro se converteu em valor supremo, surpreende realmente que estes fatos ocorram?
A Carta Maior preparou um especial para este fim de semana com reportagens e artigos que analisam esses protestos à luz de um modelo fracassado que foi cantado em prosa e verso durante pelo menos duas décadas.
13-08-2011
The Owl, traficante de Tottenham: ‘O objetivo era atacar somente a polícia’
LONDRES - The Owl, 33 anos, morador de Tottenham há 15, traz no bolso imagens históricas. Em seu celular, carrega vídeos feitos no dia 6, na High Road, epicentro dos distúrbios que se espalhariam pelo país nos quatro dias que se seguiriam, deixando cinco mortos. As imagens, às quais o Estado assistiu, mostram protestos pacíficos em frente à delegacia local. Os vídeos que se seguem mostram a escalada do vandalismo. Segundo The Owl, negro, imigrante e traficante, o objetivo inicial era atingir a polícia. Mas advertiu: a criminalidade corrói a periferia de Londres.
A comunidade de Tottenham diz que os protestos começaram pacíficos. Foi isso mesmo?
O protesto começou em paz, com umas 50 pessoas. Eles diziam palavras de ordem do tipo "Queremos Justiça!". Uma menina de 16 anos foi enviada até a delegacia, como representante do grupo, para cobrar satisfações sobre a morte do Mark Duggan. Bateram nela e a expulsaram da delegacia. A população se revoltou. Todos sacaram seus celulares e espalharam mensagens com pedidos de ajuda. Depois, não parou mais.
O objetivo original era atingir a polícia ou era atacar o comércio?
O objetivo não era tocar fogo nas casas, era incendiar a delegacia, atacar a polícia. Mas os agentes defenderam o prédio. Incendiamos o carro da polícia. A revolta aumentou e as lojas foram saqueadas. As pessoas roubaram bebidas, beberam, enlouqueceram. Muita gente ficou bêbada. Então destruíram o shopping e tudo piorou.
Você participou de tudo isso?
(Risos) Não sei quem foi, nem como tocaram fogo. Estava lá gravando, fazendo o meu trabalho. Se você estivesse lá, teria apanhado. Bateram em um cara do jornal The Sun e num fotógrafo. Só pessoas do bairro podiam filmar. Jornalistas não entravam. Veja aqui (mostra os vídeos que gravara). É fogo por todos os lados.
Todos eram de Tottenham?
Não. Eu conhecia 50% dos que estavam lá. Tinha grupos de Tottenham, Edmonton, Hackney, Wood Green. Todos vieram depois das mensagem. Quando estávamos reunidos, uma pessoa lançava a palavra de ordem. Por exemplo: "Audi" ou "Barclays", então, todos atacavam um Audi ou a agência (do banco Barclays). A polícia não fez nada. Vai existir outra revolta, no enterro do Duggan. Pode se preparar.
O fato de a polícia não agir de forma ostensiva e reprimir a violência estimulou o conflito?
Claro! A polícia só queria defender a delegacia. Se lixaram se iríamos destruir o resto da cidade. Quando viram o fogo na viatura, a coisa piorou. Se os policiais quisessem, teriam parado tudo no primeiro dia. Era só vir a tropa de choque com canhões de água, bombas de gás lacrimogêneo. Por que não o fizeram? Porque é um bairro de maioria negra, querem que a gente se mate. Quando há confusão em saídas de jogos, mandam o choque e resolvem tudo.
E você, está desempregado?
Faço o mesmo que Duggan: 157 (tráfico, o número está tatuado em seu braço). A droga que eu vendo vem da Bolívia, passa pelo seu país, em Mato Grosso, São Paulo, Santos, entra na Europa por Portugal e chega a Londres.
De quem é a culpa das revoltas, na sua opinião?
É tudo culpa da mídia. Tottenham já foi o pior lugar do país. Agora está melhor. Mas é ruim em Hackney, Croydon, Clapham, por exemplo. Ouviram o que estava estourando em Tottenham e fizeram igual. Você não sabe como funciona a mente dos britânicos. Rola concorrência o tempo todo. Se em Tottenham as gangues quebram tudo, em Croydon ou em Chatham as gangues vão querer fazer pior. Virou disputa.
Então são gangues já formadas antes dos distúrbios.
Claro. São gente que já passou pela escola junto, pelo crime junto. Duggan era meu amigo. Crescemos no mesmo bairro, éramos colegas de academia.
Duggan era mesmo traficante?
Era traficante, claro. Era tudo, na verdade. Mas a gente não trabalhava junto. Era cada um para o seu lado. Ele andava armado, eu não. Há um tempo atrás, ele foi a uma festa de criança e deu tiros para o alto. Era um cara meio louco.
Então ele portava uma pistola no momento do crime?
Não. Ele não estava armado. Como sabiam que o Duggan era bandido, forjaram a cena. Outros três foram presos,e confirmaram que Duggan não tinha pistola. Foi o mesmo erro que fizeram quando mataram aquele brasileiro, o Jean Charles.
As imagens mostram um homem com a bandeira do Brasil enrolada no rosto. Você o conhece? Havia outros brasileiros?
Duvido que fosse brasileiro. Devia ser português ou angolano usando a bandeira do Brasil. Conheço os brasileiros daqui e eles não se metem em confusão. Ou vem para trabalhar ou para a Igreja. O máximo que fazem é um pouco de tráfico. Eu conhecia a metade dos que estavam na confusão. E não vi brasileiros.
http://www.estadao.com.br/noticias/internacional,the-owl-traficante-de-tottenham-o-objetivo-era-atacar-somente-a-policia,758168,0.htm
Polícia britânica detém mais de 2 mil pessoas devido a distúrbios
13-08-2011
A polícia britânica afirma que mais de 2 mil pessoas já foram detidas em conexão com os distúrbios e com os saques ocorridos na última semana em diversas cidades da Grã-Bretanha.
Durante o fim de semana, quatro tribunais de Londres e um de Manchester (norte) estarão abertos para julgar os acusados. Somente na capital britânica, mais de 700 pessoas devem comparecer diante da Justiça.
A grande maioria dos acusados é de meninos, adolescentes e jovens adultos. A maior parte deles está se declarando culpada.
Também durante este fim de semana, um contingente extra de policiais está trabalhando nas ruas de diversas cidades para coibir eventuais novos distúrbios.
No total, segundo a polícia, 2.275 pessoas já foram detidas com relação aos episódios de violência e aos saques iniciados na Inglaterra no último sábado, e que se estenderam por vários dias.
Mortes
Em Birmingham, no centro do país, um homem e um adolescente foram acusados formalmente pela morte de três homens atingidos por um carro quando tentavam proteger lojas dos saqueadores, na última quarta-feira.
O pai de uma das vítimas, Tariq Jahan, agradeceu neste sábado a integrantes da comunidade asiática de Birmingham por respeitar o seu pedido de não buscar vingança pelas mortes, e pediu por mais ajuda por parte da polícia.
Já no bairro de Ealing, no oeste de Londres, uma vigília foi realizada em memória de Richard Bowes, que morreu depois de ser atacado durante um distúrbio, na segunda-feira.
Cerca de cem pessoas rezaram e acenderam velas durante a vigília por Bowes, morto em um hospital na quinta-feira, aos 68 anos.
A Polícia Metropolitana de Londres (também conhecida como Scotland Yard) disse que um suspeito de atacar Bowes foi detido neste sábado. Ele também é suspeito de participar dos distúrbios e de realizar três roubos.
Acusados
Em toda a Grã-Bretanha, mais de mil pessoas foram acusadas formalmente pelos distúrbios ocorridos nessa semana.
Neste sábado, a Corte de Magistrados (tribunal de primeira instância) de Westminster, em Londres, lidou com casos como o de Reece Donovan, 21 anos, morador de Romford (leste da capital), acusado de assaltar o estudante malaio Asyraf Haziq no bairro de Barking na segunda-feira.
Outro acusado era Reece Jackson, 18 anos, morador de Holly Park Estate (norte de Londres). Ele teria entrado roubado o equivalente a 20 mil libras (R$ 52 mil) em bicicletas em uma loja de artigos de ciclismo.
Em um restaurante, Jackson teria roubado quase 600 libras (R$ 1,5 mil) e 20 maços de cigarro, além de causar danos equivalentes a 3 mil libras (R$ 7,8 mil). Ele foi mantido em custódia.
'Problemas sociais'
O ministro das Finanças britânico, George Osborne, disse neste sábado que "problemas sociais profundamente enraizados" estão por trás dos distúrbios ocorridos na Grã-Bretanha nessa semana.
Em uma entrevista a BBC Radio 4 inglesa, Osborne afirmou que algumas comunidades foram excluídas da vida econômica do país, e que isto foi ignorado por muito tempo.
"Isto não é só um trabalho para a polícia. Isto é um trabalho para os políticos, para a mídia, é um trabalho para toda a nossa sociedade trazer essas pessoas mais para o centro (da vida econômica)", disse.
Os comentários do ministro coincidem com a opinião do ex-chefe de polícia americano Bill Bratton, que vai à Grã-Bretanha para aconselhar as autoridades.
"Prisões são certamente (uma medida) apropriada para os mais violentos, para os incorrigíveis, mas uma parte do problema pode ser enfrentada de outras maneiras. E não é só uma questão policial, é uma questão social", disse ele, que já foi chefe de polícia em Los Angeles, Nova York e Boston.
http://www.estadao.com.br/noticias/internacional,policia-britanica-detem-mais-de-2-mil-pessoas-devido-a-disturbios,758176,0.htm
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"Violência dos últimos dias é uma questão social"
O lojista Ken Smith tem a sua explicação para os protestos que fizeram o mundo todo virar os olhos para Londres, embora ela não seja simples. Para ele, há diversas causas escondidas no que muitos vêem apenas vandalismo e que começou sábado (6) como um protesto legítimo contra o suposto assassinato de um homem por agentes da Scotland Yard, a polícia britânica, na quinta-feira passada, no bairro de Tottenham, que registra altos índices de desemprego. Enquanto a maioria acredita que os manifestantes sejam apenas criminosos se aproveitando da situação para roubar, ele sustenta que a violência dos últimos dias é uma questão social. A reportagem é de Cris Rodrigues, direto de Londres.
Cris Rodrigues - Especial para a Carta Maior
Ken Smith é dono de uma loja em Brixton, bairro no sul de Londres em que houve um dos protestos considerados mais violentos da onda de ataques que tomou conta da capital inglesa entre os dias 6 e 9 de agosto. Ele estava lá, apesar de ser tarde da noite de segunda para terça-feira, e viu quando os jovens quebraram vitrines de lojas e colocaram fogo em carros. Sabe que eram muitos, mas não chuta quantos. Todos muito jovens, filhos de uma geração sem limites e sem perspectivas, na visão do lojista.
Smith tem a sua explicação para os protestos que fizeram o mundo todo virar os olhos para Londres, embora ela não seja simples. Para ele, há diversas causas escondidas no que muitos vêem apenas vandalismo e que começou sábado (6) como um protesto legítimo contra o suposto assassinato de um homem por agentes da Scotland Yard, a polícia britânica, na quinta-feira passada (4), no bairro de Tottenham, que registra altos índices de desemprego. Enquanto a maioria acredita que os manifestantes sejam apenas criminosos se aproveitando da situação para roubar, ele sustenta que a violência dos últimos dias é uma questão social.
“Esta geração que nasceu lá por 1995 é de jovens excluídos socialmente. Eles vivem uma subcultura. Eu tenho 41 anos, e quando eu era criança eu sabia que, se estudasse e trabalhasse, eu ganharia dinheiro e teria uma vida boa. Hoje eles acham que podem ter dinheiro sem fazer nada.”
Provavelmente muitos dos adolescentes sequer soubessem quem era Mark Duggan e por que os protestos começaram. Mas alguma coisa os tirou de suas casas para que fossem às ruas em uma tentativa de chamar a atenção e saquear. A explicação simplista da vendedora de uma loja que não quis se identificar de que são apenas criminosos “procurando confusão” não convence. “Ninguém é pobre neste país”, reforça o segurança do estabelecimento. Mas então por que tanta gente teria essa índole supostamente má em um mesmo lugar ao mesmo tempo? É sinal de que alguma coisa não vai bem na terra da rainha.
Para Smith, falta educação, disciplina e valores, o que faz com que as crianças não entendam quando estão indo muito longe e ultrapassam os limites. Mas enfatiza que a questão não é racial, embora Mark Duggan fosse negro e há suspeita de que tenha sido assassinato por preconceito.
Ele diz que o problema vem de uma ou duas décadas atrás e reside na diferença de classes, muito marcada na Inglaterra, e incentivada pela mídia. “A TV, a música, tudo influencia para fazer de você quem você é. A TV diz o que você tem que vestir. As crianças querem roupas legais, tênis, celulares. E quando elas não têm as coisas elas ficam frustradas.”
O único policial que aceitou dar algumas informações – eles estão proibidos de falar com a imprensa – estava no bairro de Chalk Farm, no norte de Londres, onde algumas poucas lojas tiveram as vitrines quebradas e alguns de seus artigos roubados segunda-feira (8) à noite. Para Gary Cooper, o termo “riots”, em português “manifestações” ou “distúrbios”, que está sendo utilizado nos meios de comunicação, não se aplica à maioria dos grupos. “São só ladrões. Não estão protestando por nada, só roubando”, disse. Ali, em poucos minutos a confusão foi dissipada. Não houve fogo nem violência.
O fato é que os acontecimentos coincidem com o momento em que a Inglaterra vive sua maior crise nos últimos 50 anos – quem faz a afirmação é o prefeito de Londres, Boris Johnson, também do Partido Conservador, em artigo na edição de terça-feira (9) do jornal Evening Standard, distribuído gratuita e massivamente todas as tardes nas estações de metrô. E, em momentos de crise, quem costuma sentir as consequências são os mais pobres, através da redução de benefícios sociais e do desemprego.
Para ficar em poucos exemplos, este ano o governo do conservador David Cameron cortou bolsas de estudos nas extremamente caras universidades britânicas, ao mesmo tempo em que o valor das anuidades subiu. As restrições para o trabalho de imigrantes estão cada vez maiores, em um país em cuja capital se ouve quase mais línguas estrangeiras do que inglês nas ruas. Ainda que a maioria não tenha consciência do que gera a insatisfação, ela existe.
E o governo, ancorado nos meios de comunicação, não parece muito interessado em procurar explicações. Tem colunista de jornal até citando o filósofo Thomas Hobbes e seu estado de natureza para explicar o caos nas ruas inglesas, como se o problema residisse no excesso de liberdade e a solução estivesse em um governo forte, capaz de decidir por todos. Colocar 16 mil policiais nas ruas foi a única resposta do primeiro-ministro, enquanto afirmava que enfrentaria os criminosos com mãos de ferro, com frases que deixariam os defensores de direitos humanos de cabelo em pé, como estas: “Vocês vão sentir toda a força da lei. Se você tem idade suficiente para cometer crimes, você tem idade suficiente para encarar a punição”. Desta forma, ele joga toda a responsabilidade para os jovens e busca não refletir sobre por que a sociedade tem crianças e adolescentes que cometem esses atos.
A força policial de fato encerrou os protestos, e agora os londrinos dormem tranquilos. Garantir o metrô e os ônibus funcionando e as ruas em aparente tranquilidade parece o suficiente para Cameron. Já são mais de 1.100 pessoas presas na Inglaterra, 805 só em Londres, e assim parece que o problema foi solucionado. De fato, para quem trata uma manifestação social dessa magnitude como “criminalidade, pura e simples”, basta encerrar os ataques que a noite de sono tranquilo está garantida. Mas as pessoas continuam lá, o desemprego aumenta, a crise corrói.
Agora a situação está sob controle na Inglaterra, e a rainha pode ficar aliviada. David Cameron passou por um difícil teste ao controlar a violência, mas só o fato de ela ter começado e de ter atingido a proporção que atingiu já é suficientemente significativo de que o país não está navegando em mares tão calmos e sob controle. Resta saber se agora os olhos vão se abrir e gerar alguma reação política efetiva para a vida dos cidadãos e cidadãs ou se o governo vai continuar fingindo que não aconteceu nada além de incêndios, roubos e três mortes sem causa e sem importância social. Se tratar como um sangramento já estancado, ele vai voltar a abrir.
(*) Cris Rodrigues é jornalista, mantém o blog Somos Andando, vive atualmente em Londres.
http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=18219&boletim_id=981&componente_id=15772
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Londres: por que aqui, por que agora?
Por que são sempre as mesmas áreas que se insurgem primeiro, o que quer que seja a causa? Pura coincidência? Estará relacionado com a raça, a classe, a pobreza institucionalizada e a tristeza da vida difícil do dia-a-dia? Não importa o Partido, não importa a cor de pele do deputado, eles reproduzem sempre os mesmos clichês. O artigo é de Tariq Ali.
Tariq Ali
Os políticos da coligação (incluindo o New Labour, que provavelmente se juntará a um “governo de salvação” se a recessão continuar) com as suas ideologias petrificadas não podem dizê-lo porque os três partidos continuam igualmente responsáveis pela crise. Eles criaram esta confusão.
Eles privilegiam os ricos. Querem que fique claro que juízes e magistrados devem dar o exemplo, punindo severamente jovens apanhados com saques. No entanto, nunca questionaram seriamente o fato de não haver acusações às mais de mil mortes de cidadãos sob custódia policial, desde 1990. Não importa o Partido, não importa a cor de pele do deputado, eles reproduzem sempre os mesmos clichês. Sim, sabemos todos que a violência nas ruas de Londres é má. Sim, sabemos que pilhar lojas não é correto. Mas porque agora? Por que isso não aconteceu o ano passado? Porque as resistências às injustiças crescem com o tempo, porque quando o sistema provoca a morte de um jovem cidadão negro de uma comunidade pobre, em simultâneo, mesmo que inconscientemente, provoca uma resposta.
E as coisas podem piorar se os políticos e a elite financeira, com o apoio dos meios de comunicação públicos e os de Murdoch, falham na retomada econômica e decidem punir os pobres e os precários pelas políticas que eles próprios aplicaram nas três últimas décadas. Desumanizar o “inimigo”, em casa ou no estrangeiro, criando o medo e a prisão sem julgamento digno é uma estratégia que não pode funcionar para sempre.
Se houvesse um partido de oposição sério neste país, estaria reivindicando o desmantelamento deste sistema neoliberal com pilares instáveis antes que ele desmorone por si e afete ainda mais gente. Por toda a Europa, as diferenças que separavam o centro-direita do centro-esquerda, que separavam os conservadores dos sociais-democratas, desapareceram. A fusão entre políticas oficiais dos partidos confundem propositadamente os segmentos mais desfavorecidos do eleitorado, a maioria.
Os jovens negros desempregados ou semi-empregados de Tottenham, Hackney, Enfield e Brixton sabem perfeitamente que o sistema está a atacá-los. O zurrar dos políticos não tem real impacto na maior parte das pessoas, quanto mais naquelas que atiçam o fogo nas ruas de Londres. Os fogos vão ser apagados. Haverá uma espécie de inquérito patético ou algo semelhante para investigar as razões do assassinato de Mark Duggan, remorsos serão expressos, haverá flores da polícia no funeral. Os manifestantes detidos serão punidos e todos terão uma sensação de alívio e continuarão com a sua vida, até que isto tudo volte a acontecer.
http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=18218&boletim_id=981&componente_id=15773
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Explode panela de pressão social nos subúrbios de Londres
Rebelião, quebra-quebra e saques nos arredores de Londres certamente não tem nada de organizados, mas são alguns dos primeiros sintomas a emergir da austeridade, da crise e do desemprego que assola a Grã-Bretanha. Uma semana antes dos eventos que entram para a história de Londres como as piores rebeliões em quase três décadas, um jovem negro da comunidade de Tottenham alertava, em um vídeo produzido pelo The Guardian, para a grande panela de pressão que tinham se tornado, principalmente, as ruas dos subúrbios londrinos. A reportagem é de Wilson Sobrinho, direto de Londres.
Wilson Sobrinho, correspondente da Carta Maior em Londres
Se alguém pudesse argumentar motivações de justiça social por trás do protesto que deu origem à rebelião em Tottenham, no norte de Londres, no início da noite de sábado, menos de 24 horas depois essas razões já tinham sido vaporizadas quando os bairros de Enfield, Walthamstow, Islington e Brixton vivenciaram saques, quebra-quebra e violência gratuita (1). Porém, mesmo que qualquer política estivesse longe dos objetivos dos jovens que passaram a chuvosa noite de domingo em Londres quebrando vitrines de lojas de calçados esportivos e artigos eletrônicos, os resultados das decisões políticas ainda eram visíveis para qualquer um que olhasse com mais atenção para a trilha de destruição.
Uma semana antes dos eventos que entram para a história de Londres como as piores rebeliões em quase três décadas, um jovem negro da comunidade de Tottenham alertava, em um vídeo produzido pelo The Guardian, para a grande panela de pressão que haviam se tornado as ruas da capital britânica em seus bairros mais desfavorecidos economicamente. “As ruas de Londres são duras, existem muitas gangues e crimes. E quando os clubes juvenis se foram eles acabaram cortando as raízes e as conexões dos jovens. Eles ficaram sem ter para onde ir... E é por isso que tem mais crime nas ruas: não há nada para se fazer.” Ele termina em tom de alerta: “Vai ter rebelião”. (2)
Os clubes juvenis a que ele se refere são centros comunitários onde jovens ingleses podem aprender profissões, praticar esportes, compor e gravar música e, acima de tudo, ficar longe das ruas e da influência das gangues, um problema particular em áreas mais carentes e afastadas do centro da mais rica capital europeia.
“Se você cortar as atividades de Verão dos jovens, tão certo como a noite segue o dia, você vai ver aumento na criminalidade”, disse o professor John Pitts (3) ao The Guardian, no dia 26 de julho, dias depois do começo das férias escolares de verão.
“Meu nervosismo é que esses membros de gangues que estavam na escola irão para as ruas. Junte isso a cortes nos serviços que eles usam e menos assistentes sociais que podem mediar a situação, e essas ruas estarão muito mais perigosas e eu imagino que o nível de crime e violência irá aumentar”, disse em tom quase premonitório.
De acordo com o jornal, ainda que as médias dos cortes orçamentários apresentados no plano de austeridade do governo conservador tenha ficado em 28%, algumas das autoridades locais estão cortando de 70 a 80% do orçamento de programas sociais destinados a jovens. Um bom exemplo disso é a sub-prefeitura de Haringey, onde fica o bairro de Tottenham, cujo orçamento desses serviços foi dizimado por um corte de 75% e oito de um total de treze desses centros foram fechados nos últimos meses.
“Em um nível mais simples”, diz Pitts, “isso significa um aumento no vandalismo e no comportamento antisocial. Em longo prazo, se você retirar a proteção do estado então haverá um aumento da influência dos grupos para cobrir esse vácuo”.
E foi exatamente o que se viu nas ruas londrinas – principalmente na noite de domingo. Gangues juvenis aproveitando o clima de caos, e a certeza de que a polícia não poderia conter tantos ataques simultâneos, para praticar crimes. Não há nada de político ou organizado nisso – tão somente caos e anarquia patrocinados por adolescentes sem perspectivas de futuro.
O início do processo porém difere em gênero. Uma centena de pessoas se reuniu em frente à delegacia de Tottenham para exigir da polícia respostas pela ação que culminou na morte de Mark Duggan, na quinta-feira anterior. Duggan, de 29 anos, foi baleado e morto pela polícia em circunstâncias não-esclarecidas em um táxi próximo à estação de trem de Tottenham. Uma comissão policial investiga o caso.
“Eu disse ao inspetor chefe que queríamos sair antes da noite cair. Se ele nos deixasse esperando depois do pôr do sol, seria sua responsabilidade. Nós não poderíamos garantir que não sairia de controle”, descreveu um membro da comunidade que estava na manifestação inicial (4).
“Se um membro da polícia tivesse vindo falar com a gente, nós teríamos ido embora. Nós chegamos às 17h e tínhamos planejado uma hora de protesto silencioso. Ficamos lá até as 21h. A polícia foi culpada. Se eles tivessem dado uma resposta quando chegamos à delegacia, pedindo que um oficial chefe viesse falar com a família [da vítima] teríamos ido embora antes da rebelião se iniciar”.
A família de Duggan condenou a violência que se seguiu ao pôr do sol em Tottenham. “Queríamos respostas. Eu nem disse aos meus filhos que ele está morto pois eu não posso dar respostas a eles”, disse a noiva de Duggan. “Não estou feliz com o que aconteceu. Não queríamos esses problemas. Queríamos respostas”, afirmou ela ao The Guardian.
NOTAS
(1) BBC News: London riots: timeline of violence
(2) The Guardian (vídeo): Haringey youth club closures: 'There'll be riots'
(3) Knife crime and gang violence on the rise as councils reduce youth services
(4) We warned Tottenham situation could get out of control – community leaders
http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=18198&boletim_id=982&componente_id=15797
Multidão protesta em Londres contra cortes nos serviços públicos
Mais de 300 mil pessoas foram às ruas da capital britânica neste sábado para se opor aos planos do governo de cortes de gastos públicos, na maior manifestação popular do gênero em décadas. “Eu nasci em 1945, no final da guerra, então eu cresci com educação pública e gratuita, eu fui para a universidade, eu tive acesso à saúde pública por toda minha vida e tudo isso agora está indo com os planos do governo, que são um assalto ideológico à esfera pública”, disse à Carta Maior a professora Harriet Bradley, da Universidade de Bristol.
Wilson Sobrinho, correspondente da Carta Maior em LondresNa maior manifestação popular vivida na capital britânica em uma geração, uma multidão estimada em mais de 300 mil pessoas superlotou as ruas dos quarteirões políticos mais importantes de Londres neste sábado, três dias depois de o governo anunciar o orçamento para o próximo ano fiscal, com mais de 30 bilhões de libras em cortes nos gastos públicos. A caminhada – que durou mais de cinco horas e superou de longe a expectativa inicial dos organizadores – teve como objetivo demonstrar oposição às medidas de austeridade defendidas pela coalizão governista.
A maior manifestação coordenada por um sindicato em duas décadas no país trouxe pessoas de todas as partes, em mais de 600 ônibus fretados e até mesmo trens. Estima-se que a demanda por transporte para Londres tenha superado a oferta, limitando o comparecimento dos ativistas.
“Foi fantástico”, disse Paul Nowak à reportagem de Carta Maior, sentado ao lado do palco montado no Hyde Park para abrigar o ápice do evento e o fim da marcha. O dirigente da Trades Union Congress (TUC), central sindical que organizou a manifestação, comemorava a presença de “pessoas que nunca estiveram antes em uma manifestação política em suas vidas, dizendo em uma só voz que os cortes não são a cura”.
Quem percorresse o percurso da manifestação poderia testemunhar os motivos da alegria de Nowak. Assombrosa em diversidade, a Marcha para a Alternativa era composta de aposentados a estudantes, passando por famílias empurrando carrinhos de bebê. Muitos deles tendo viajado horas para estar lá. Eram 4,5 mil policiais e seguranças contratados pela TUC, trabalhando mais para orientar o público do que para manter a ordem. “Tivemos um quarto de milhão de pessoas e quase nenhum problema”, afirmava uma postagem em uma página especial montada na internet pela polícia para se comunicar com os manifestantes.
Às 11h da manhã, uma hora antes do combinado para o início da manifestação, os organizadores enviavam mensagens pela internet pedindo que as pessoas que ainda não tinham chegado procurassem desembarcar em estações de metrô diferentes a fim de evitar aglomeração. Eram 15h30 quando os organizadores anunciaram que as últimas pessoas estavam finalmente passando pelo ponto de partida.
O peculiar senso de humor britânico permeou toda a marcha. Dois ativistas construíram uma réplica de um tanque de guerra de cerca de dois metros e meio por três. Pintaram o símbolo da paz nas laterais do carro e desfilavam, empurrando o veículo da “guerra contra os cortes” tal como Fred Flintstone e Barney Rubble, do desenho animado da Hanna-Barbera. Até música tinha a invenção, e a trilha sonora variava de temas de filmes de guerra antigos a uma sugestiva Let's Lynch The Landlord, da clássica banda punk californiana Dead Kennedys.
“Estou marchando pois acredito que esses cortes vão destruir tudo de bom que existe em nossa sociedade”, disse Harriet Bradley, professora na Universidade de Bristol, a 170 quilômetros a oeste de Londres. Sentada ao pé de um monumento para recuperar o folêgo quando a manifestação já andava a mais da metade de seu percurso, ela se mostrou feliz com o a quantia de pessoas na marcha, porém temerosa com o futuro do “estado de bem estar social que foi construído depois da guerra e que é o nosso orgulho e alegria”.
“Eu nasci em 1945, no final da guerra, então eu cresci com educação pública e gratuita, eu fui para a universidade, eu tive acesso à saúde pública por toda minha vida e tudo isso agora está indo com os planos do governo, que são um assalto ideológico à esfera pública”, afirmou Bradley. Assim como uma boa parte do público, que carregava cartazes propondo uma greve geral, Bradley acredita que é preciso fazer mais que isso para impedir o avanço das reformas conservadoras.
Sam (que não forneceu o sobrenome), um norte-americano aposentado que mora em Liverpool e milita no Keep Our NHS Public (Mantenha o nosso Sistema Nacional de Saúde Público), segurava uma faixa em defesa do sistema de saúde britânico. “Eu sei como é quando o sistema público de saúde é destruido”, disse. “O NHS foi uma das grandes conquistas do últimos 100 anos e a idéia de os serviços de saúde serem providenciados através do mercado é uma besteira completa – eu desafio qualquer um a mostrar evidências de que o mercado pode fornecer um serviço melhor do que o setor público”, diz referindo-se ao sistema no seu país natal.
Sam acredita que os movimentos populares estão começando a se organizar e essa é a única solução possível para pressionar o governo a mudar os planos de privatização do sistema de saúde.
Ele vê uma relação entre os movimentos populares que começam a se manifestar nos EUA e na Inglaterra, muito em função do que ele considera uma postura do Partido Trabalhista (Grã-Bretanha) e do Partido Democrata (EUA) de virar as costas para o povo.
Certamente uma opinião não compartilhada pelo líder dos trabalhistas, o oposicionista Ed Miliband, Ele subiu ao palco no Hyde Park para um discurso e atacou o governo. “Sabemos o que o governo vai dizer: que essa é a marcha da minoria. Eles estão errados”. Miliband, assim como boa parte da manifestação, usou de uma expressão cunhada pelo primeiro ministro para descrever o que irá substituir os serviços públicos quando eles se forem – A Grande Sociedade, composta por pessoas das comunidades em trabalhos voluntários.
“Vocês queriam criar a “grande sociedade” - essa é a grande sociedade. A grande sociedade unida contra o que esse governo está fazendo nesse país”.
A manifestação, pacífica em sua grande maioria, parecia estar pronta para um desfecho perfeito por volta do final da tarde. Manchetes de jornais estariam todas disponíveis para o dia em que a política voltou às ruas de Londres. Os problemas porém vieram. E embora não tenham relação com a marcha da TUC, certamente roubaram as grandes manchetes que os ativistas já podiam antever quando o mar de descontentamento pacífico inundou as ruas do West End de Londres a partir de Embankment.
Ativistas que organizaram manifestações paralelas se reuniram no centro comercial londrino, a rua Oxford. Por volta das 15h, a concentração era tamanha que algumas das lojas que foram alvos de ativistas no passado resolveram fechar as portas temporariamente. Pouco mais de uma hora depois, funcionários seriam liberados de lojas como Top Shop, que haviam dado o dia como encerrado, diante de milhares de anarquistas e estudantes concentrados na região.
Algumas lojas tiveram vidros quebrados e foram atacadas com tinta. Manifestantes da UK Unkut invadiram a Fortnum and Mason, uma luxuosa loja de departamentos próximo a Picadilly. Cantando palavras de ordem e exigindo que a empresa contribuisse com mais impostos para a sociedade inglesa, a UK Uncut obrigou a loja a fechar as portas. Embora aleguem não ter destruido nada, alguns manifestantes foram presos pelo batalhão de choque que os esperava na porta.
“Isso não tem nada a ver com a marcha”, disse Nowak, defendendo a manifestação pacifica. “Esse foi um evento onde as pessoas trouxeram as suas famílias”.
Perto da meia noite, a BBC ainda transmitia ao vivo da praça Trafalgar, onde uma centena de manifestantes ainda estava reunida e policiais agiam para retirá-los do local. Ao todo, ao longo do dia, mais de 200 manifestantes foram presos.
http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=17607&boletim_id=982&componente_id=15798
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A NORTE DA EUROPA SOCIAL
A história da Europa dependerá de como ela lidará com esta crise; se segue o curso pacífico do benefício mútuo e prosperidade econômica tão apreciados nos manuais de ciência econômica, ou se segue a espiral baixista da austeridade, que tanto tem tornado impopulares os planejadores do FMI, nas economias devedoras. É nesse barco que a Europa embarcará? Esse é o destino do projeto de uma Europa social, de Jacques Delors? É isso o que os cidadãos da Europa esperavam, quando adotaram o euro? Há uma alternativa, nem é preciso dizer. É que os credores do cume da pirâmide econômica arquem com as perdas. O artigo é de Michael Hudson e Jeffrey Sommers.
Michael Hudson e Jeffrey Sommers - SinPermiso
Letônia e os "Tigres Bálticos": modelo para Irlanda, Espanha e Portugal?
“Sejam como a Letônia!”, gritam os banqueiros e a mídia financeira aos governos da Grécia, da Irlanda e agora, também, de Portugal e Espanha. “Por que não ser como a Letônia e sacrificar vossa economia para pagar as dívidas que contraístes durante a bolha financeira?”. A resposta é que não podem fazê-lo sem sofrer um colapso econômico, demográfico e político que piorará ainda mais as coisas.
Faz só um ano que se reconheceu que várias décadas de neoliberalismo tinham destruído a economia estadunidense e a de muitos países europeus. Anos de desregulação, de especulação e de falta de investimento na economia real deixaram-nos com uma desigualdade crescente e com uma demanda magra de consumo, salvo a financiada incorrendo em dívida. Mas a imprensa financeira e os tomadores de decisões políticas neoliberais contra-atacaram se servindo dos “Tigres Bálticos” como aríete paradigmático contra as políticas keynesianas de gasto e contra o modelo da Europa social sonhado por Jacques Delors.
Os analistas viram nos resultados das eleições letãs de outubro passado uma vindicação da eficácia da austeridade para resolver a crise financeira. O mantra habitual – recitado novamente há pouco por The Economist – é que o honrado e taciturno primeiro ministro letão, Valdis Dombrovskis obteve a reeleição em outubro apesar de ter imposto as políticas fiscais e de austeridade mais duras já adotadas em tempos de paz, porque um eleitorado “maduro” teria se dado conta da necessidade peremptória e desafiou à “sabedoria recebida” votando num governo de austeridade.
O Wall Street Journal publicou não poucos artigos a favor desse ponto de vista. No último deles, Charles Dowbury advogava uma estratégia letã de desvalorização interna e austeridade como modelo a seguir pelas nações europeias em crise. A ideia mais comumente defendida é que a queda livre da Letônia (a maior entre todas as nações desde a crise de 2008) chegou finalmente ao fundo do poço e que a recuperação, embora frágil e bastante modesta, está em curso.
Essa ideia atrai os banqueiros que buscam evitar quebras na dívida privada e na pública, na esperança de que a austeridade possa levar à recuperação econômica. Mas o modelo letão não é imitável. A Letônia carece de um movimento operário com voz e conta apenas com uma modesta tradição de ativismo que não se baseie na etnia. Ao contrário do que figura na imprensa, suas políticas de austeridade distam muito de serem populares. As eleições giraram em torno de assuntos étnicos, não foi um referendum sobre a política econômica. Os etnicamente letões (a maioria) votaram em partidos etnicamente letões (a grande maioria, neoliberais), enquanto que a considerável minoria russófila (30%) votou com análoga disciplina em seu partido (vagamente keynesiano).
Vinte anos depois da independência, as consequências da emigração russa para a Letônia sob a ocupação soviética segue configurando pauta de votação. A menos que outras economias possam utilizar divisões étnicas similares como cobertura de distração, os dirigentes políticos que se proponham a políticas de austeridade de tipo letão estão condenados ao sufrágio eleitoral.
Embora a crise econômica tenha sido suficientemente profunda para fazer uma população despolitizada sair às ruas no inverno de 2009, o grosso dos letões não tardou em achar o caminho de menor resistência na pura e simples emigração. A austeridade neoliberal gerou perdas demográficas maiores que as deportações de Stalin nos anos 40 (desta vez, no entanto, sem perdas de vidas). À medida que os cortes em educação, assistência em saúde e outras infraestruturas sociais básicas cada vez mais ameaçam minar o desenvolvimento no longo prazo, os jovens preferem a emigração ao sofrimento, numa economia sem postos de trabalho. Mais de 12% da população total (e um percentual muito maior de sua força de trabalho) trabalha agora no exterior.
Além disso, as crianças (as poucos que há, dada a derrubada nos índices de casamentos e natalidade) ficaram para trás, em situação de orfandade. Isso levou os demógrafos a se perguntarem a respeito da sobrevivência deste pequeno país, de modo que, a menos que outras economias europeias devastadas pela dívida e com populações muito superiores aos 2,4 milhões de habitantes da Letônia possam encontrar mercados de trabalho que aceitem seus trabalhadores desocupados em consequência da austeridade financeira, a menos que isso ocorra essa opção é inviável.
O crescimento de 3.3% previsto para a Letônia em 2011 se menciona como prova adicional do êxito de um modelo de austeridade que teria estabilizado tanto sua crise da dívida como seu déficit comercial crônico, financiado com empréstimos hipotecários em moeda estrangeira. Dado que o PIB caiu 25% durante a crise, com tamanha taxa de crescimento levaria uma década inteira só para recuperar as dimensões da economia letã de 2007. Como este “rebote do gato morto” [1] poderia resultar suficientemente atrativo e induzir os outros Estados da União Européia a se lançarem no despenhadeiro fiscal?
A economia comparada, sob todos os aspectos, política
A despeito de seus resultados econômicos e sociais desastrosos, o certo é que o trauma neoliberal letão é idealizado pela imprensa financeira e pelos políticos neoliberais, a fim de impor austeridade em suas próprias economias. Antes da crise global de 2008, os “Tigres Bálticos” eram celebrados como a vanguarda das economias de livre mercado da Nova Europa. Os críticos desse “milagre” econômico – fundado em empréstimos em moeda estrangeira para financiar a especulação com propriedades e a aquisição de bens públicos em processo de privatização – foram menosprezados e depreciados como negadores obstinados. E agora, sem perder a pompa, os comentaristas de ocasião cometem a insolência de nos oferecer a opção letã pela austeridade como uma política exemplar para outras nações.
A opção letã serve a distintos senhores. Permite à imprensa financeira seguir disparando com a autocorreção dos mercados e com a ideia de que a austeridade traz consigo a prosperidade. O Banco Central letão (cuja estridência neoliberal, diga-se de passagem, levou até o FMI a expressar preocupação) deseja dar uma volta por cima que o absolva de pôr em curso políticas que impõem sofrimento maciço ao povo letão. E Washington e os neoliberais da União Europeia desejam que outros países tornem suas a versão letã da “Porta Aberta” da China, disfarçada de um sistema dickensiano de proteção social. A abertura à penetração econômica é o critério de medida e os bálticos a exibem em grau superlativo; ergo, são “exitosos” independentemente do bem ou do mal que sua economia custe às necessidades de seu povo.
Dada a proximidade entre a Letônia e a Bielorrússia, é ilustrativo comparar o modo como os neoliberais avaliaram suas economias. A Letônia sofreu o pior colapso econômico europeu em 2008 e 2009, com um continuado desemprego na casa de dois dígitos. Sua economia não tem crescimento até agora (2011) e é mais provável que o modesto crescimento experimentado siga acompanhado por uma taxa de desemprego de dois dígitos. Uma fração enorme de sua população evacuou do país, deixando para trás crianças ao cuidado de avós, senão sozinhos.
A vizinha Bielorrússia, que conta com poucas vantagens geográficas letãs (portos e costas), tem um PIB não muito menor que o da Letônia. A Bielorrússia experimentou um auge com taxas de crescimento de dois dígitos antes da crise e manteve sua economia em pleno emprego durante a crise, muito longe do colapso de 25% que desorganizou a Letônia. A Bielorrússia tem também um coeficiente de Gini (índice que mede a desigualdade) próximo ao da Suécia, enquanto a Letônia se aproxima mais dos níveis crescentes de desigualdade que caracterizam no momento os EUA.
E no entanto, a Letônia é declarada um sucesso e a Bielorrússia, um fracasso. O World Factbook da CIA recorda aos seus leitores que o bom rendimento econômico bielorrusso ocorreu “apesar dos obstáculos de uma economia inflexível centralmente dirigida”. Tal é a caracterização corrente da Bielorrússia. Mas o que haveria de se perguntar é se o que seu êxito reflete não são precisamente as virtudes de sua planificação central. A Letônia gerou maior liberdade política para seus dissidentes, mas a Bielorrússia tem menos desigualdade econômica e dívida externa menor.
Todas as economias da história tem sido economias mistas. Não estamos defendendo a imprensa do Camarada Lukachenko, tampouco sua política repressiva na Bielorrússia. Simplesmente não vamos ao extremo oposto de aplaudir o modelo neoliberal letão. Pode-se criticar o sistema político bielorrusso sem tragar a oligarquia eleitoral em que a vida política letã consiste. No entanto, ganhem ou percam em matéria de resultados econômicos, o caso é que a imprensa e os acadêmicos ocidentais proclamam a Letônia e os famintos Tigres Bálticos vencedores, enquanto a Bielorrússia, sejam quais forem seus rendimentos econômicos, sejam quais forem seus méritos, é declarada perdedora. Não ver-se-á uma só mirada de comparação objetiva entre as economias dos dois países; ninguém se preocupa em examinar sobriamente onde têm êxito e onde fracassam (também por setores) com o olhar voltado para as lições de todo inevitáveis. As comparações econômicas são, sob todos os aspectos, políticas.
Não estamos culpando a nação letã pelos cruéis experimentos políticos neoliberais a que está sendo submetida; o que está em questão é a comunidade global dos mandatários políticos, de intelectuais e de parte das próprias elites letãs: sua persistência em prosseguir nessa política fracassada e ainda recomendá-la a outros países como via para o crescimento econômico (quando do que se trata é de um suicídio econômico e demográfico). O povo letão sofreu as consequências devastadoras das duas guerras mundiais e de duas ocupações, o que o neoliberalismo veio coroar com o desmantelamento de sua indústria e o aprofundamento cada vez maior da dívida – em moeda estrangeira! – desde a conquista de sua independência, em 1994 (1). O neoliberalismo gerou uma pobreza tão profunda que causou um êxodo de proporções bíblicas ao exterior. Chamar a isso de um passo econômico adiante e uma vitória da razão econômica não pode menos que recordar a caracterização das vitórias militares imperiais romanas que Tácito pôs na boca do líder celta Calgacus, antes da Batalha de Monte Graupius: “Desertificam e chamam a isso de paz”.
Ao longo dos vários anos que levamos visitando a Letônia (ler: O Caminho da Servidão), temos tido testemunhos de um povo industrioso e talentoso, transbordante de pessoas inteligentíssimas, embora submersas num meio corrupto. O que nos propomos aqui é explicar por que o fracassado “modelo letão”, longe de se entender como uma política a impor, quer a Irlanda, a Grécia e a outros países europeus devedores, deveria ver-se como um aviso do que outros países têm de evitar a todo custo.
Temos trabalhado na mesma Letônia com o propósito de estimular uma mudança de político. O que, afinal, está agora em jogo é o futuro da democracia social europeia e a continuação da paz numa região devastada por guerras durante um milênio antes de 1950.
O problema é que as dificuldades econômicas europeias enraízam-se unicamente na prodigalidade, como comumente sustentam a imprensa econômica e muitos políticos; a dívida é uma consequência de problemas estruturais financeiros, econômicos e fiscais da concepção da Europa pós-soviética. Em substância: a União Europeia nunca desenvolveu mecanismos sustentáveis de transferência de capital de suas economias mais ricas para os países mais pobres, especialmente na periferia.
A ordem de Bretton Woods do pós-guerra foi parte de um sistema mais facilitador de empréstimos de reconstrução e transferências de capital entre uma Europa destruída pela guerra e os EUA. A ajuda do Plano Marshall, acompanhada de controles de capital e investimento público para estimular o desenvolvimento econômico e a independência monetária permitiu às economias nacionais da Europa ocidental comprar importações procedentes dos EUA e, ao mesmo tempo, construir sua própria capacidade exportadora e aumentar seus níveis de vida.
Não é que o sistema fosse perfeito, mas o desejo de evitar o ciclo anterior, de meio século, de depressão econômica e guerra (assim como as crescentes preocupações derivadas da Guerra Fria) levou as economias da Europa ocidental a se desenvolverem e a estabeleceram as bases de uma ulterior integração continental.
O período pós-Guerra fria depois de 1991 reflete pautas similares de subdesenvolvimento na relação entre a Europa ocidental rica e seus sócios mais pobres do Leste e do Sul europeus. Em claro contraste com aquilo que foi feito depois da Segunda Guerra Mundial, não se forjaram estruturas institucionais que conferissem a estas últimas economias capacidade de se auto sustentar. Ao contrário: o que o endividamento em moeda estrangeira conseguiu – marcadamente, em empréstimos hipotecários para moradia -, sem estabelecer os meios para a sua devolução foi o resultado exatamente oposto.
Hoje, os estados mais ricos da União Europeia são economias industrializadas de alto valor agregado. A ampliação da União Europeia há vinte anos ficou marcada por umas exportações e uns créditos bancários crescentes oriundos dessas nações ricas para as que chegaram a ser as economias em crise dos nossos dias; ficou marcada, do mesmo modo, por níveis crescentes de endividamento, no contexto de vendas e liquidações privatizadoras sem impostos progressivos à renda e com impostos reduzidos para a propriedade de bens imóveis (um fator, este último, da maior importância para entender as bolhas imobiliárias).
Durante a década passada, os países bálticos e da Europa do Leste financiaram o grosso de seu déficit comercial com empréstimos procedentes de bancos suecos, austríacos e de outros países, com a garantia de bens imóveis e infraestruturas que compravam e recompravam com uma dívida alavancada crescente. Isso não permitiu o assentamento de bases para o estabelecimento de meios de pagamento dessas dívidas, salvo com uma bolha imobiliária continuamente inflada que permitiu sustentar os empréstimos em moeda estrangeira com volume suficiente para cobrir os déficits comerciais crônicos e as não menos crônicas fugas de capitais.
O que os estados bálticos tem feito agora é equilibrar seus balanços em conta corrente, não produzindo mais bens e serviços e empobrecendo a sua população. Seus planejadores neoliberais destruíram o consumo, não para criar capital para investir, mas para pagar dívidas a banqueiros estrangeiros. Assim é como se está ajustando a interrupção dos fluxos de capital procedente dos bancos estrangeiros, agora que o empréstimo gerado pela bolha imobiliária secou. (Recorde-se, de passagem, que este empréstimo exterior gerado pela bolha imobiliária foi em seu momento calorosamente aplaudido, por converter os seus mercados imobiliários em “Tigres Bálticos” cavalgáveis por uns bancos que se enriqueceram com o processo).
Os banqueiros e a imprensa financeira pintam este programa de austeridade desenhado para poder pagar aos bancos como um caminho para o futuro. O que dista em muito da realidade. Porque a realidade crua é que tal programa afunda esses países numa maré de títulos de dívida nas mãos de credores que nunca se preocuparam muito com a forma como as economias bálticas poderiam pagar. E pagar, é o caso dizê-lo, encolhendo a economia, emigrando e esmagando ainda mais implacavelmente os trabalhadores.
A carga fiscal gravita muito mais pesadamente sobre o emprego que na Europa ocidental de sessenta anos atrás, no período de sua reconstrução. Os negócios com informação interna privilegiada e a fraude financeira se estenderam a toda parte. Como não bastasse, a dívida nominal em euros para os membros associados garantia receitas em suas próprias moedas locais. E o pior de tudo: os bancos simplesmente emprestavam para a compra de imóveis e infraestruturas já existentes, em vez de financiar o incremento da produção e a formação de capital tangível. À diferença das subvenções de governo a governo do Plano Marshall, a política do Banco Central Europeu de centrar os empréstimos bancários comerciais produziu uma única coisa: uma bolha imobiliária.
O empréstimo bancário aprofundou suas bolhas imobiliárias e financiou uma transferência de propriedade imobiliária, mas não a formação de muito capital tangível novo, que facilitaria as economias devedoras a pagarem suas importações. Ao contrário: suas dívidas cresceram sem que se incrementasse sua capacidade de importação. Resultou assim, pois, inevitável que todo o castelo de cartas terminasse por desmoronar.
Ao instituir as relações econômicas da União Europeia, a teoria do livre mercado assumiu que o investimento direto e o empréstimo bancário propiciariam o capital necessário para ajudar as regiões econômicas mais pobres a encurtar distâncias. Essa suposição se revelou infundada. Os bancos, ao emprestarem com hipotecas e outros ativos já existentes, inflaram seus preços de crédito. O que agora é preciso enxugar é o gasto da dívida e outras sequelas relacionadas a essa filosofia econômica de mente estreita.
Tudo isso serviu aos grandes exportadores da União Europeia, mas não desenvolveu uma estabilidade de alcance europeu, fundada num crescimento econômico de maior envergadura. Sem a ameaça da guerra à espreita ou sem a intimidação política da Rússia, as nações mais ricas da Europa puseram na proa uma liberação comercial e umas privatizações que aceleraram a desindustrialização no antigo bloco soviético. Aos membros da Europa meridional fizeram-nos entrarem na zona do euro com sua moeda forte e suas limitações ao gasto público, o que impediu que esses países pudessem desenvolver suas indústrias da mesma maneira que o fizeram a Europa Ocidental e os Estados Unidos.
Esse estado de coisas não podia durar muito, porque o Leste europeu foi reconstruído de maneira tal que se tornou dependente da importação e ficou financeiramente subordinado ao Oeste: mais, pois, como uma região colonial do que como um sócio de pleno direito. E como ocorre com as regiões coloniais, o oeste se converteu no destino das fugas de capitais, à medida que se vendia propriedade imobiliária a crédito e os lucros saiam das cleptocracias e das oligarquias do leste europeu e da Europa do sul. A moeda estrangeira para pagar os empréstimos bancárias que estavam inflacionando os preços dos bens imóveis se obtinha tomando ainda mais empréstimos, a fim de inflacionar ainda mais os preços da propriedade imobiliária: a definição clássica de um esquema ponzi. Neste caso, os bancos europeus jogaram o papel de novos participantes no esquema piramidal, organizando as economias pós-soviéticas como uma vasta cadeia de letras que subministram o dinheiro para manter o fluxo da espiral para cima.
O problema foi que o crédito só era concedido para alimentar bens imóveis e para financiar a exportação de bens de uma Europa ocidental dependente da exportação (com sua Política Agrícola Comum de excedentes e colheitas) a um Leste desindustrializado e agricolamente não modernizado. A dívida piramidal expansiva tinha de colapsar, porque não se estabeleceram os meios de pagá-la.
Houve uma vaga esperança de que os níveis de desenvolvimento econômico terminassem se igualando em toda a UE, como se o empréstimo bancário e as compras e tomadas de controle empresarial estrangeiros pudessem levar a uma maior homogeneidade e não a uma maior polarização financeira. O problema é que a União Europeia via seus novos membros como mercados para os bancos e os exportadores existentes (o que incluía também vê-los como base de dumping e de preços predatórios para seus excedentes agrícolas), não como novos membros que necessitavam de ajuda para se tornarem economicamente sustentáveis, nem tampouco como países em que se pudesse erguer sistemas financeiros nacionais viáveis por si mesmos.
A grande questão: afundar a própria economia para pagar a dívida a uns bancos que foram irresponsáveis ou carregar a banca com perdas e salvar a prosperidade e uma igualdade social mínima.
Dadas as restrições que o euro impõe aos seus países membros, compreende-se que as nações e os bancos credores da União Europeia queiram resolver esta crise com uma “desvalorização interna”: salários mais baixos, menos gasto público e queda dos níveis de vida, quer dizer, medidas que possibilitem o pagamento da dívida. É a velha doutrina do FMI que fracassou estridentemente no Terceiro Mundo. Dir-se-ia que esta doutrina está em pleno processo de ressurreição na Europa.
A política da UE parece consistir em que a renda dos assalariados e os fundos de pensão resgatem os bancos de sua herança de más hipotecas e outros empréstimos que não podem ser pagos (salvo vendendo a cabeça à miséria). Grécia e Irlanda, e agora talvez também Portugal e Espanha, entendem o modelo que se lhes está exigindo emular? Quantas doses de “medicamento letão” podem fazer esses países engolirem?
Se suas economias se encolhem e se o emprego cai, para onde emigrará sua força de trabalho? Sem investimento público, como chegarão a ser competitivos? A vida tradicional para as economias mistas é a concessão pública de infraestrutura a preços de custo ou a preços subsidiados. Mas se os governos, como se diz, “preparam o seu caminho de saída da dívida” vendendo suas infraestruturas públicas a compradores privados que as compram a crédito (com taxas de juros fiscalmente deduzidas!), o que fazem é contaminar a economia de pedágios extratores de renda, essas economias seguirão, assim, cada vez mais atrasadas e serão ainda mais incapazes de honrar suas dívidas. E o atraso nos pagamentos vai se resolver numa curva de crescimento exponencial de juros compostos.
As nações e os bancos credores da União Europeia estão buscando resolver a crise por uma via que não lhes custe muito dinheiro. O melhor, dizem, dada a impossibilidade em que se encontram as economias em crise de depreciar a sua moeda, é a “desvalorização interna” (a austeridade salarial), conforme o modelo letão. Os bancos e os titulares de bônus cobrarão a partir dos empréstimos de resgate do FMI e da UE.
O problema é a austeridade imposta com os níveis atuais de endividamento. Se os salários (e, portanto, os preços) declinam, a carga da dívida (já suficientemente elevada em termos históricos comparativos) vai se tornar mais pesada. É o que os EUA sofreram em fins do século XIX, quando o nível de preços foi induzido à baixa para “restaurar” o ouro ao seu preço anterior à Guerra Civil (e anterior, pois, ao bilhete verde [dólar valendo como título de crédito]). O candidato presidencial William Jennings Bryan se esgoelava, crucificando o trabalho na cruz do ouro em 1896. É o mesmo problema que a Inglaterra tinha experimentado antes, depois do Tratado de Gante, que pôs fim às Guerras Napoleônicas em 1815. À parte a miséria e as tragédias humanas que se irão multiplicar-se como consequência da austeridade fiscal e salarial, é economicamente autodestrutiva: criará uma espiral para baixo da demanda, que levará o conjunto da União Europeia à recessão.
O problema básico é se é desejável para as economias sacrificarem seu crescimento e impor a depressão – e níveis de vida mais baixos – em benefício dos credores. Raramente na história foi esse o caso, salvo em contextos de guerra aguerrida de classes. Assim, pois, o que farão os letões, os gregos, os irlandeses, os espanhóis e outros europeus, quando seu trabalho for crucificado pela “desvalorização interna”, perdendo poder aquisitivo para pagar os credores estrangeiros?
O que é necessário é um botão de reiniciar da filosofia econômica e fiscal da UE. A história da Europa dependerá de como ela lidará com esta crise; se segue o curso pacífico do benefício mútuo e prosperidade econômica tão apreciados nos manuais de ciência econômica, ou se segue a espiral baixista da austeridade, que tanto tem tornado impopulares os planejadores do FMI, nas economias devedoras.
É nesse barco que a Europa embarcará? Esse é o destino do projeto de uma Europa social, de Jacques Delors? É isso o que os cidadãos da Europa esperavam, quando adotaram o euro?
Há uma alternativa, nem é preciso dizer. É que os credores do cume da pirâmide econômica arquem com as perdas. Isso restauraria os coeficientes intensificados de Gini de desigualdade de renda e riqueza aos níveis mais baixos de há uma ou duas décadas. Não fazê-lo significaria restar presos a um novo tipo de tributo de tipo extrator internacional, muito parecido ao que os invasores vikings impuseram a Europa, há mil anos, ao se apoderarem das terras e imporem um tributo. Hoje, o que fazem é impor encargos financeiros ao modo da servidão pós-moderna, que ameaça devolver a Europa ao seu estado pré-moderno.
NOTA T.: [1] "Dead cat bounce", ou "rebote del gato muerto" é uma expressão derivada do dito inglês comum: Even a dead cat will bounce if it is dropped from high enough! ("Até um gato morto rebota, se jogado de altura suficiente)", e passou a engrossar o jrão metafórico do mundo financeiro anglo-saxão atual: aponta um rebote mais ou menos sustentável de um valor ou de um título, depois de uma forte e duradoura queda, mas o valor em questão, como o gato, segue morto e jazer inerte em si mesmo é seu destino.
Michael Hudson trabalhou como economista em Wall Street e atualmente é Distinguished Professor na Universidade do Misoury, Kansas City, e presidente do Institute for the Study of Long-Term Economic Trends (ISLET) [Instituto para o estudo das tendências econômicas de longo prazo]. Sua dedicação aos problemas das economias pos-soviéticas, e especialmente a letã levou-o a ser representante, por parte da coalizão de esquerda letã Centro da Harmonia, como economista chefe da Reform Task Force Latvia, um think tank encarregado de elaborar uma política econômica alternativa para esse país báltico. É autor de vários livros, entre eles destacam-se: Super Imperialism: The Economic Strategy of American Empire (nueva ed., Pluto Press, 2003) e Trade, Development and Foreign Debt: How Trade and Development Concentrate Economic Power in the Hands of Dominant Nations (ISLET, 2009).
Jeffrey Sommers é codiretor do Baltic Research Group no ISLET e professor visitante na Stockhol School of Economics, de Riga.
Tradução: Katarina Peixoto
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Inglaterra: castiguem os ricos, não os desempregados
Os conservadores lançaram um ataque brutal às pessoas desempregadas para desviar as críticas dos verdadeiros parasitas: os ricos. Na semana passada, o governo anunciou que os desempregados que solicitam auxílio deverão realizar trabalhos não remunerados: caso se neguem a fazê-lo, perderão o subsídio. Os chefes e a imprensa da direita estão encantados. O Daily Mail anunciou com alegria: “Em uma nova ofensiva contra os parasitas sociais, os desempregados irresponsáveis terão que participar de um programa de trabalho exigente, estilo EUA, que incluirá a obrigação de realizar trabalhos de jardinagem, limpeza de lixo e outras tarefas manuais por apenas 1 libra a hora”. O artigo é de Viv Smith.
VEJA MAIS EM: https://mail.google.com/mail/?shva=1#inbox/131c28eaed290f26
O ocaso da “Terceira Via”
A auto-intitulada “Terceira Via”, em sua tentativa de estabelecer “diálogos” com o neoliberalismo terminou engolida por este. O Trabalhismo inglês não foi capaz de preparar o país para resistir à crise mundial, que arrasou importantes instituições britânicas e ampliou o desemprego e a miséria. Economicamente, além de não blindar a economia britânica, também conduziu o país num ritmo de crescimento que só fez reduzir sua relevância na economia global, reforçando a centralidade da economia alemã no contexto europeu. O artigo é de Tarso Genro e Vinicius Wu.
VEJA MAIS EM: https://mail.google.com/mail/?shva=1#inbox/131c28eaed290f26
A exumação do discurso neoliberal na mídia
A endogamia entre a mídia brasileira e as forças políticas do conservadorismo, uma parceria que impôs ao país uma agenda "de reformas" para liberar os mercados e submeter a sociedade, não é um fato isolado e ocorreu em praticamente toda a América Latina. Em 2003, por exemplo, a revista Veja publicou uma edição especial saudando os "campeões do neoliberalismo", Margareth Thatcher e Friedrich von Hayek.
Saul Leblon*
Em setembro de 2003, em edição especial de 35 anos, a revista Veja, por todos os motivos reconhecida como uma das trincheiras mais aguerridas da pregação neoliberal na mídia brasileira - sem menosprezar os predicados de inúmeros cronistas perfilados no mesmo bastião - dedicou-se a um balanço daquilo que anunciou como sendo: " ... 35 anos da história do Brasil e do mundo contado a Veja por quem a fez".
E quem a fez? De acordo com a revista da Abril, pelo menos no quesito ícones da economia, foram Margareth Thatcher, a Dama de Ferro, autora da pérola “Isso a que chamam sociedade não existe. O que existe são os indivíduos"; e o não menos preclaro militante do individualismo econômico e político Friedrich von Hayek, para quem o vale-tudo dos mercados era requisito para a liberdade humana.
Nesta segunda-feira, 13 de outubro de 2008, em que a Europa, liderada pela Inglaterra da ex-primeira Dama de Ferro, inaugura a maior intervenção estatal da história no sistema financeiro do continente e os mercados - ah , ingratidão...- reagem favoravelmente, é forçoso transcrever algumas passagens expressivas da homenagem feita por Veja a seus oráculos.
A endogamia entre a mídia brasileira e as forças políticas do conservadorismo, uma parceria que impôs ao país uma agenda "de reformas" para liberar os mercados e submeter a sociedade, não é um fato isolado. Na América Latina tudo começou em março de 1975 quando o economista Milton Friedman aceitou um convite para se reunir com o ditador Augusto Pinochet. Dezoito meses antes desse encontro o Exército comando por Pinochet derrubara o governo democraticamente eleito do socialista Salvador Allende não hesitando para isso em bombardear o Palácio de La Moneda, no centro de Santiago, com aviões-caça da Força Aérea chilena. Santiago patinava em sangue e violência enquanto Friedman, um porta-voz da escola de Chicago, exortava Pinochet a destinar a truculência da ditadura para implantar no país a agenda da desregulação para os mercados e do tacape para a democracia.
No Especial de 2003 a revista Veja dedica a essas balizas com as quais intoxicou a subjetividade da classe média brasileira nas últimas décadas o título de: "Os Campeões do liberalismo". A seguir, trechos da sua apresentação para a entrevista com Margareth Thatcher e Friedrich von Hayek . Veja fala por si:
Os campeões do liberalismo (revista Veja, setembro de 2003)
"Margaret Thatcher é o melhor homem da Inglaterra." A frase é do ex-presidente americano Ronald Reagan, com quem "Maggie" formou uma dupla afinada. Quando ela assumiu o cargo, em 1979, a Inglaterra era a menos viável das nações industrializadas. Em onze anos e meio no poder, Thatcher privatizou furiosamente, peitou sindicalistas, encolheu o governo e recuperou a prosperidade dos ingleses. A receita de Maggie atraiu ira e admiração em doses descomunais. "Se quiser que um político diga algo, chame um homem. Se quiser que faça, chame uma mulher", afirmava. Quando VEJA falou com ela em 1994, em Londres, o liberalismo à moda de Thatcher começava a ser copiado em diversas partes do mundo.
(...)
VEJA – Quem se opõe à privatização das estatais no Brasil costuma dizer que privatizar é pegar algo que é propriedade de todos e dar de presente a alguns.
THATCHER – Ninguém está dando nada a ninguém. A verdade é o contrário: em geral as estatais têm de ser subsidiadas com o dinheiro dos contribuintes. O governo não sabe administrar empresas, quase sempre o faz de modo inepto. Logo, logo a empresa está perdendo dinheiro, e o contribuinte tem ao mesmo tempo de comprar o que ela produz e pagar o prejuízo.
Crônica de uma vitória anunciada (Mais um texto da Veja)
"O economista Friedrich von Hayek foi entrevistado por VEJA em 1979, o ano em que Margaret Thatcher assumia o governo da Inglaterra. Mais que uma coincidência, o momento marca uma transição da teoria para a prática. Em 1944, Hayek lançou seu livro mais conhecido, "O Caminho da Servidão", prevendo que a Inglaterra perderia sua posição de destaque no mundo caso insistisse em políticas intervencionistas. Foram necessários 35 anos para que os ingleses percebessem que o velho pensador estava certo.
Isso ocorreu quando Thatcher se incumbiu de soltar as amarras da economia britânica, colocando seu país novamente em velocidade de cruzeiro. O austríaco naturalizado inglês assistiu à vitória de seu pensamento. Acompanhou em vida o governo de Margaret Thatcher, que se tornou um exemplo para boa parte do mundo. Morreu em 1992, tendo assistido à queda do Muro de Berlim e ao esfarelamento da União Soviética. Hoje, governos de direita e de esquerda, de José María Aznar a Luiz Inácio Lula da Silva, baseiam suas políticas na idéia da qual Hayek foi o profeta e Thatcher, a executora: o liberalismo econômico".
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