Por René de Kart, em 02/12/2011
Quando eu era criança sempre ouvia a frase “cospe no chão e sai nadando” quando alguém alguém era flagrado fazendo ou dizendo alguma besteira. É uma variante daquela frase “finja que vai cagar e some daqui”. Os globais que emprestaram sua imagem ao video contra a usina hidrelétrica de Belo Monte poderiam usar este conselho quando alguém questionar sobre suas opiniões a respeito da usina.
Depois que alunos de duas grandes universidades do país (UnB e Unicamp) resolveram fazer vídeos contestando o Movimento (?) Gota D’Água e várias pessoas melhores informadas do que aqueles atores ativistas da Globo contestaram o texto que eles interpretaram, acredito que o assunto ficou superado. Tentaram enfiar goela abaixo um monte de mentiras para defender um norte/nordeste atrasado que só interessa às elites do sul mas não colou.
Mas o vídeo foi bom para elucidar o quanto estamos propensos a assimilar as idéias que as emissoras de televisão embutem em suas novelas. Apesar do vídeo do falso movimento ter sido elaborado por um grupo de pesquisadores da PUC-RJ e um ator, o depoimento de artistas conhecidos foi a estratégia usada para dar credibilidade ao que era informado e passar um tom que apelasse mais para o emocional. Se a Globo, como empresa, teve ou não participação nisso, é difícil de afirmar ou negar.
De certa forma, as novelas e seriados são maneiras sútis de controlar a emoção do povo. Uma atitude de um personagem do Malhação ( ainda existe?) pode ser mais inspiradora a um jovem do que os conselhos de seu pai.
Percebe-se também que bordões de personagens são rapidamente assimilados e multiplicados entre as pessoas. É um “meme” tal qual Richard Dawkins teorizou em seu livro “O Gene Egoísta”, uma informação que se reproduz na mente das pessoas e ganha com isso a sua difusão e existência prolongada no tempo. Foi um paralelo que ele traçou com a informação genética e talvez responda porque existimos: existimos para existir.
Voltando ao assunto, o vídeo foi contestado porque caiu em um ambiente altamente politizado, que é a Internet. Não fosse a internet e caso fosse veiculado antes de 2005 (ano que considero que a internet tenha amadurecido e que houve a conversão para o modelo 2.0 no Brasil) o vídeo teria aceitação geral e críticas seriam ignoradas. O que não ia dar em nada mesmo assim, porque brasileiro só sai gritando pelas ruas quando a seleção vence a Copa do Mundo.
Ao longo do tempo, a televisão moldou nossos hábitos e estivemos propensos a aceitar a visão de autores de novelas e seriados. Existe um fator psicológico que se chama “suspensão temporária da descrença” que explica porque conseguimos acompanhar um desenho animado (por exemplo) onde animais ou até objetos falam sem que tamanha aberração nos faça perder o interesse pela história. Indo mais além, a suspensão temporária da descrença permite até que raciocinemos como um Ogro ou um burro falante e que tenhamos empatia por uma pedra solitária.
Suspendemos nossa descrença desde que os primeiros televisores foram sintonizados no Brasil. Não é por outro motivo que maioria dos caciques políticos possuem alguma retransmissora de sinais ou até canais de televisão. Não é por outro motivo que as “capitânias hereditárias” televisivas foram distribuidas de maneira duvidosa na época da Ditadura e grandes empresários como Roberto Marinho tinham forte amizades com pessoas como ACM, o rei da Bahia.
Hoje, é um novo tempo, de um novo ano, que começou… Não acreditem nisto!
http://www.observadorpolitico.org.br/grupos/opiniao/forum/topic/movimento-cuspa-no-chao-e-saia-nadando/
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