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quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Vamos ao que vale - FHC no Roda Viva

MODOS E MANEIRAS DE NÃO VER FHC NO RODA VIVA

07 de Dezembro de 2011 às 09:19

Palmério Doria

Para celebrar a entrada de Fernando Modernoso Cardoso na blogosfera, o apresentador Mario Sergio Conti, que passa a emoção de um caixa eletrônico do Bradesco, quase troca Roda Viva, vinheta musical do programa da TV Cultura, pela Marselhesa.
Do programa todo, soçobrou tudo. Mas se fosse interagir com o ex-presidente no Facebook–, que não interage nem consigo mesmo --, pego um único tema da entrevista: como a crise pode chegar ao Brasil.
Futurólogo do passado, FHC repete, só que em puro barroquês, o que todo mundo diz: desaquecimento do comércio com China, por exemplo. O que o leva a um terreno perigoso. Lembra imediatamente sua privatização da Vale, assunto minado para ele.
Para minha sorte, acompanho o programa na estimulante companhia de Wiskenhauer, meu amigo filósofo, economista e geólogo favorito. Vendo FHC se debatendo no centro daquele cenário digno do além, deixo ele pra lá e sorvo as palavras do Mestre. Wiskenhauer, que não se faz de rogado: desmonta a empáfia de “estrategista” do “ociólogo” logo na questão da privatização.
“Foi um processo açodado e no momento errado. O preço não foi justo e nada democrático. Além disso, muitos países ainda mantém empresa estatais em setores estratégicos, como mineração, metalurgia e energia – o Chile com a Codelco (mineração de cobre) e Noruega com a Norsk Hydro (mineração e metalurgia de alumínio).”
E dá uma situada no quadro à época.
A Vale foi avaliada pelo BNDES e consultores como se fosse apenas uma fábrica e parafusos e botões, sem levar em consideração o valor estratégica da empresa.
Além disso, as reservas de minério foram avaliadas sem levar em consideração o valor estratégico, prevendo uma produção de apenas 20 anos – depois disso seriam pagos os royalties ao governo.
Tudo isso fez com que o valor total da Vale caísse para cerca de 10 bilhões de dólares. O controle foi vendido por pouco mais de 3 bilhões de dólares.
Wiskenhauer dá um sorriso maroto:
“Hoje, qualquer jazidazinha de itabirito (minério de ferro de baixo teor) é negociada no mercado por vários bilhões de dólares. O Eike Batista sabe muito bem disso. Só Carajás valeria bem mais que a Vale. Para Wiskenhauer, que pertenceu ao alto escalão da empresa, a Vale era a última prioridade de privatização.
“Então FHC pirou?”, provoco.
“Não. Ele queria se comportar como um bom menino, fazendo a lição de casa dada pelos banqueiros internacionais.”
A mensagem para o mercado era clara.
“ Se até a Vale, então do Rio Doce, está sendo privatizada, é porque o processo de privatização do governo é sério.”
Lembra então o tititi da época na estatal.
“A determinação de FHC era tão grande, que todos os dirigentes e empregados da Vale foram proibidos de qualquer manifestação pública ou pela imprensa. Quando da implantação de Carajás, em pleno governo Figueiredo e em plena ditadura, houve liberdade total para a discussão do projeto.”
Ora veja o presidente que se intitulou nesta segunda, durante o programa, autêntico democrata!
Um aspecto que Wiskenhauer faz questão de ressaltar.
“Como a economia tem seus ciclos, a Vale foi privatizada no momento errado, quando as economias tradicionais – americana e européia – começam a dar sinais de exaustão. As próprias privatizações que ocorreram no mundo foram uma forma encontrada de dar sobrevida a essas economias, e a economia chinesa começava a dar sinais de vitalidade.”
Manda de novo aquele sorriso de ironia.
“Só os estrategistas de FHC não percebiam isso.”
E prossegue.
“Mas em relação à privatização da Vale persistem mais perguntas do que respostas.”
Vamos a elas.
No início havia apenas dois grupos: o da Anglo American (empresa anglo-sulafricana que já foi a maior mineradora do mundo, e que no Brasil, entre outras, explorava a mina de ouro de Morro Velho) e o da Votorantim (Ermírio de Moraes). Tudo indicava que a privatização estava sendo dirigida para atender à Anglo American.”
Wiskenhauer dispara uma sucessão de mísseis.
Por que o Grupo Ermínio de Moraes foi impedido de se associar ao Bradesco mesmo sendo associados na área de energia, sob a alegação de que o banco havia participado do processo de “valoração” da Vale?
Por que os fundos de pensão não se associaram ao Grupo Ermínio de Moraes para reforçá-lo na competição com a Anglo American?
Por que surgiu um terceiro concorrente, liderado pela CSN/Vicunha, aparentemente para dar transparência ao processo?
Por que o Bradesco pode se associar a esse terceiro concorrente, e de que forma, pois aparentemente estava impedido?
Por que a Previ se associou a esse terceiro concorrente e não ao Grupo Ermínio de Moraes.
Qual foi o verdadeiro papel de Benjamim Steinbruch no processo? Empresário de fato? Testa de ferro? Laranja?
Por que o governo, mesmo detendo o controle da Vale (Previ e Bandspar) é pouco atuante nas decisões estratégicas da Vale?
Por que só o Bradesco controla a Vale?
Perguntas que não querem calar até hoje. Como é bom perder o Roda Viva.

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