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quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Debate Político X Denuncismo Vazio

Posted on December 16, 2011 by Lucas Assis
Há cerca de uma semana, um dos assuntos que mais repercutem nos blogs sobre política e no Twitter é o livro “A Privataria Tucana”, do jornalista Amaury Ribeiro Jr.. Apesar do silêncio da grande mídia, o livro vendeu 30 mil exemplares em dois dias e o combativo deputado federal Protógenes Queiroz, do PC do B, conseguiu as 172 assinaturas necessárias à instauração de uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar a denuncias.

Como já comentei brevemente em post anterior, o livro é muito mais que o ataque a um partido, já que desvela uma parte dos subterrâneos da política nacional, onde ocorre a simbiose macabra entre o empresariado nativo e agentes públicos municipais, estaduais ou federais- sejam parlamentares, tecnocratas ou membros do executivo. Aquele espaço em que o interesse privado utiliza a máquina pública para enriquecimento pessoal ou projetos de poder de facções políticas. Territorio que, devemos admitir, não é exclusivo de apenas um dos partidos políticos de nosso país. O livro, inclusive, insinua o acordo entre PT e PSDB na CPI do Banestado em 2004 e fala sobre o “fogo amigo” dentro do PT,que foi a raíz do factóide do “dossiê Serra” lançado pelo próprio José Serra em colaboração com a grande mídia em 2010, quando era candidato à presidência da República .

Utilizando o livro como ponto de partida, algumas questões realmente políticas surgem de imediato, paralelas ao imobilizante tema “corrupção”:

1- financiamento público de campanhas políticas. A quem interessa de verdade o financiamento privado?

2- significado das privatizações da Era FHC e a possibilidade de reaver o patrimônio nacional que foi perdido. Muito se critica as privatizações tanto da perspectiva ideologica quanto em relação às possíveis irregularidades, mas por que quase não se fala em reestatizar? As críticas então são oportunistas ou falta coragem? Quem tem coragem?

3- a urgência de avanço no debate da “Lei da Mídia” no Brasil. Graças ao monopólio foi possível orquestrar o silêncio- agora e durante anos a fio- a respeito de um assunto grave que contraria os interesses do PSDB, aliado da grande mídia. O Ministério da Comunicação, do PT, no entanto, não parece muito empenhado em fazer as coisas acontecerem de verdade. Quais recursos de poder estão sendo mobilizados para não se avançar nesse assunto? O governo se tornou refém dos donos da mídia?

Além das três grandes questões que apontei, outras mais surgem, como desdobramento- talvez assuntos para outro post. A corrupção denunciada no livro, assim como quaisquer atos ilícitos praticados por quem quer que seja, claro, deve ser investigada e punida. Porém, não podemos nos esquecer que o debate deve avançar para além do episódio, do contrário cometeremos o mesmo erro daqueles que combatemos: o denuncismo oportunista, que em vez de mobilizar a sociedade para o debate político- principal fonte de real moralização da política-, imobiliza a pauta política verdadeira.

O texto abaixo reproduzido de Luciano Martins Costa via Observatírio da Imprensa aborda a superficialidade do dia a dia da imprensa em geral, que nos últimos anos redundou no tratamento fragmentado de dois grandes assuntos: corrupção e crise financeira internacional. O texto dialoga com minhas colocações sob outra perspectiva.

“Os velhos vícios da urgência

Corrupção e crise econômica mundial foram os temas predominantes na imprensa brasileira durante este ano. Se estendermos o período de observação, vamos chegar à conclusão de que o tema corrupção domina o noticiário como pauta mais frequente há pelo menos seis anos, e as instabilidades da economia estão presentes na rotina da imprensa desde setembro de 2008.

No entanto, observa-se que em nenhum momento a imprensa conseguiu ou pretendeu apresentar ao público análises capazes de desvendar tanto as raízes da crise financeira global como a natureza mais profundas da corrupção no Brasil.

O noticiário tem como características principais o imediatismo, a superficialidade e a fragmentação. Não se pode esquecer que é da natureza do jornalismo diário o eterno combate entre a urgência e a profundidade. Pois é justamente na resolução desse dilema que reside a capacidade da imprensa tradicional de manter sua relevância no mundo contemporâneo.

Sem discussão

O amadurecimento das novas tecnologias de informação deveria ser uma oportunidade para os jornais investirem em grandes reportagens. Pode-se aproveitar as amplas possibilidades da comunicação multimídia na internet, utilizando o meio digital como instrumento para suprir a demanda da urgência, consolidar o tema no meio papel e remeter o leitor de volta à internet para informações complementares, com acesso a bancos de dados, arquivos de som e vídeo, análises e estatísticas.

Mas, nesse período, foram raras as ocasiões em que os chamados jornais de circulação nacional aproveitaram esses recursos para brindar seus leitores com conteúdos mais consistentes.

No caso do noticiário sobre a crise financeira internacional, por exemplo, a imprensa chegou a divulgar informações sobre o comprometimento das agências de avaliação de risco em possíveis fraudes ou omissões que mantiveram o mercado americano de ações aquecido artificialmente. Mas não seguiu explorando esse filão.

Também foram poucas as referências ao sistema de remuneração dos executivos nos grandes bancos dos Estados Unidos, que levou à estratégia desastrada da busca de resultados em curtíssimo prazo.

Em quase todos os casos, o material mais crítico em relação à falta de sustentabilidade do sistema econômico mundial foi produzido por analistas estrangeiros ou por agências internacionais.

Essa constatação impõe uma conclusão: a imprensa brasileira, de modo geral, se nega a discutir o sistema capitalista.

Jogando o jogo

Quanto ao noticiário sobre a corrupção, é evidente a mesma falha, que se caracteriza pela incapacidade ou desinteresse da imprensa em discutir sistemas. A maioria das pesquisas de entidades que se dedicam a estudar a ação de organizações criminosas dentro das instituições públicas – como a Transparência Internacional, Artigo 19, Instituto Ethos, Amaribo ou Movimento Nacional de Combate à Corrupção Eleitoral – apontam para a compreensão da corrupção como um problema sistêmico e não como uma questão moral circunstancial.

Pois a cobertura da imprensa brasileira se caracteriza pela abordagem pontual, fragmentada e seletiva do tema. Quando admitem avançar na abordagem, os jornais procuram convencer o leitor de que a corrupção é um fenômeno restrito basicamente ao governo federal, com origem na política de alianças partidárias e no sistema de financiamento de campanhas. Essa visão produz nos cidadãos um sentimento de indignação difuso, tornando difícil superar a contradição entre a sensação de bem-estar criada pela ação governamental com relação à economia, e o mal-estar produzido pelo noticiário sobre corrupção.

Sem interesse

Esses sentimentos contraditórios causam uma indignação sem objeto específico, paralisam a sociedade e desmoralizam a democracia, porque a percepção geral é de que todos os políticos são ladrões ou apenas esperam uma oportunidade para meter a mão no dinheiro público.

Portanto, não há uma direção clara para onde conduzir o desejo de mudança. Ao mesmo tempo, a imprensa estimula a consolidação de uma cultura política personalista, que dissimula os problemas estruturais do sistema representativo. Com isso, embora faça campanhas formais em favor da consciência de cidadania, a ação objetiva da imprensa se dá no sentido contrário.

A omissão da chamada grande imprensa brasileira em discutir sistemas segue sendo seu principal pecado. Pode-se especular sobre as razões dessa deficiência, mas acerta quem imaginar que a imprensa, como sistema corporativo, é beneficiária desse jogo de poder e por esse motivo não tem interesse em reformas no sistema.”

http://www.sobretudonews.com.br/2011/12/16/debate-politico-e-denuncismo-vazio/

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